terça-feira, 8 de janeiro de 2013

16:47

Esplendor, vingança e resgate...

Era uma jovem bela, de longos cabelos dourados que lhe caíam em ondas sobre os ombros finos e delicados. A pele clara como a neve que cai no inverno reluzia no lindo contraste com os olhos de um azul tão profundo e misterioso quanto o dos oceanos. Vivia junto a uma velha tia, Agnes Arquibald, em uma humilde casa no interior da Cidade de Roma. A jovem, mesmo tendo nascido no seio da miséria, comportava-se tão bem quanto a mais graciosa das damas parisienses, tão aclamadas na época; ao passear pelas praças italianas a menina parecia flutuar em meio ao revoar de suas delicadas e simplórias vestimentas pobres, seu andar era gracioso; o movimentar de seus braços delicados era acompanhado por todos nas ruas que paravam para admirá-la, seus lábios deixavam revelar um sorriso de dentes perolados e davam o toque final à composição prima. A italiana amava as flores, pois as considerava símbolo da pureza do mundo, do amor, da beleza e da verdade. Amava, principalmente, as rosas, do mesmo modo como a flauta ama a música. Seu nome era Sabrina Arquibald. Dona de poderes mágicos invejáveis em toda a comunidade bruxa, Sabrina era a personificação da própria perfeição para a sociedade da época: perfeita mulher, perfeita dama, perfeita diplomata e perfeita feiticeira.

Muitos eram os que se encantavam pela jovem, e muitos também eram os galanteios que recebia. Ora que a menina sabia que nenhum dos nobres homens que a ela se apresentavam possuía o interesse de firmar-se em um casamento, posto a consistência da pobreza da garota não a possibilitasse de ofertar um dote digno. Mas, eis que, a italiana acabou por sucumbir aos galanteios apaixonados de Narciso Hitcher. Os dois estiveram enamorados e juntos pelo preciso tempo de cinco meses, momento em que o homem alegou ter de fazer uma viagem à França, e lá permaneceria por três meses. Contudo, passado o tempo esperado o jovem não retornou e, sofrendo como que em dores de parto, a menina agonizou em penosos choros pelo amado desaparecido. Um mês S e passou, e a jovem, aparentando sinais de melhora em sua saúde física e mental, voltou às ruas. Pobre garota, antes tivesse permanecido dentro de sua confortável residência! Toda a Roma estava esbaforida com a notícia do casamento da filha do prefeito da cidade, a jovem Imnage Bellami, com o distinto cavalheiro que atendia pelo nome de Narciso Hitcher. A doce Sabrina mal teve tempo de calcular o peso da notícia que lhe fora jogada sobre os ombros, pois no mesmo dia um senhor em Direito lhe procurou para informar que a menina havia herdado uma fortuna invejável, herança de um parente distante que havia acabado de falecer.

Com a posse do dinheiro, a menina cedeu um pouco de sua fortuna para a velha tia e deixou a terra onde nascera, mas não sem antes jurar vingança ao namorado que a deixara. Ninguém teve mais notícias da jovem bruxa por muito tempo, tendo ela sido totalmente esquecida pelas pessoas daquela cidade. Enquanto isso, ainda em Roma, a família que Narciso construíra florescia em perfeita harmonia e, da união entre ele e sua esposa rica, três lindas meninas nasceram: Aracne, Psiquê e Cassiopéia. Contavam as jovens dezenove, dezessete e quinze anos, respectivamente, quando surgiu em Roma uma ilustre senhora, que a todos se fez apresentar com o nome de Nêmesis. Ninguém na cidade jamais a havia visto, agia sempre por intermédio dos muitos súditos que estavam ao seu dispor, e mesmo quando chegou à pólis em uma carruagem negra não se fez mostrar, pois uma longa capa de cor anil ocultava-lhe todo o rosto e o corpo. Mesmo assim, todos puderam notar que se tratava de uma dama ilustre, pois seu andar demonstrava a altivez de quem já estivera nos bailes mais luxuosos da Europa.

Contava o mês de março com quinze dias quando a nova moradora anunciou, por intermédio de um de seus lacaios, que dali a treze dias daria em sua nova residência um baile de máscaras, para o qual os mais nobres cortesãos da sociedade italiana estariam convidados. A família dos Hitcher contava de grande prestígio dentro de Roma e por isso não deixou de ser convidada à festa. Por uma estranha coincidência, no dia marcado para o aguardado baile abateu-se sobre o Conde e a Condessa (como passaram a ser conhecidos Narciso e Imnage) uma estranha virose que os impediram de ir ao festejo, contudo suas filhas que gozavam de plena saúde partiram. Vestidas magnanimamente lá se foram as três jovens, e lá chegando o baile corria a todo o vapor. As mais belas melodias eram tocadas, as luzes tinham sobre si lindos efeitos mágicos e o mais puro vinho era servido em finas taças de cristais que jamais se secavam. Minutos após terem chegado, as três meninas foram convidadas a ir ao gabinete da anfitriã da festa e, é claro, que todas elas se mostraram muito curiosas para saber o que deseja a misteriosa mulher com elas.

Lá chegando foram acolhidas pela dama que lhes disse ter sabido por intermédio de amigos que estavam sendo versadas em magia em uma renomada escola para bruxas. As jovens confirmaram o boato e foram solicitadas a resolver um enigma proposto pela anfitriã. Tratava-se de uma charada facílima e que as jovens, inteligentes como eram, solucionaram rapidamente. A dama, que até o momento havia permanecido de costas às meninas, virou-se para elas e deixou cair o capuz da capa escarlate que lhe cobria o corpo. A mulher apresentava uma pele morbidamente branca, e os olhos de um vermelho tão intenso quanto o manto que a cobria. Seus cabelos lisos e de uma cor que em muito se aproximava do branco caía-lhe até o meio das costas, a boca deixava à mostra um sorriso irônico e simultaneamente acolhedor. A mulher então pediu que elas escolhessem que recompensa iriam querer ganhar por terem demonstrado tamanha destreza na resolução do enigma.

A primeira a se manifestar foi a mais nova delas, Cassiopéia, que querendo humilhar a velhice da senhora pediu um espelho mágico, no qual pudesse sempre mirar a beleza daquele dia por mais que envelhecesse, o pedido foi aceito e com um leve aceno da varinha da anfitriã foi aceito. Aracne, a irmã mais velha, reparando no modo frágil e sem segurança com que a ancião segurava o condão quis humilhá-la ainda mais e pediu um aro, para que pudesse bordar sempre as mais belas peças, um aro que deixasse sempre jovens e altivos os dedos da moça, e assim o pedido dela foi atendido. Psiquê, a irmã do meio, era dona de uma humildade sem tamanho e deixou que as irmãs se antecipassem nos pedidos. Quando as outras duas já haviam pedido, a menina se levantou e disse meigamente que nada merecia por ter resolvido um enigma tão fácil, mas que estaria satisfeita se a dona da mansão cedesse-lhe uma das belas rosáceas vermelhas que haviam no jardim daquela casa, e que vira ao entrar. A mulher parecendo um pouco abalada perante aquele pedido fez surgir sobre a sala uma flor de pétalas cor de carmim. Logo depois do último desejo ser atendido, as moças foram dispensadas, mas, antes de sair, Psiquê dirigiu um último olhar à mulher e pensou ter visto um olhar marejado e azul sobre o vermelho de ódio nos olhos da mulher.

Depois daquele baile, cada irmã seguiu a sua vida, fazendo as escolhas que julgavam importantes. E eis o que aconteceu a cada uma delas:

Cassiopéia, que havia escolhido o espelho, envelheceu como qualquer pessoa normal, mas jamais se deu conta disso. O seu espelho continuava a mostrá-la tão jovem quanto fora aos quinze anos, não a deixando saber de sua verdadeira condição de anciã. Quando ainda era jovem a garota viajou para terras distantes, para fazer sucesso com sua beleza. Mas a ruína da mais nova das irmãs veio quando ela teve a audácia de desafiar as belas ninfas do mar, aclamando-se mais bela que todas elas. As deusas sentiram-se de tal modo ofendidas pelo desafio que mandaram à terra um grande espelho, quando a solteirona (a jovem Cassiopéia nunca se casou por achar que nenhum homem merecesse a sua beleza) viu-se como realmente era no espelho das ninfas, enlouqueceu. E em um ato de insanidade jogou-se ao mar, onde teve o corpo devorado por monstros marinhos enviados pelo próprio Poseidon (Deus-Mar) para punir a mulher. E assim morreu a mais jovem das filhas de Narciso.

Aracne não chegou a viver tanto quanto a irmã, pois tendo escolhido o tear morreu no auge de seus vinte e sete anos. Tendo se casado com um homem arrogante e extremamente rico, a jovem passava todo o seu tempo se distraindo na construção dos mais finos bordados já vistos em toda a Itália, ou mesmo na Europa ou Índia. Arrogante como era, a hábil costureira ousou desafiar a maior tecelã que havia em toda em Europa, Atena. Aracne valia-se de achar que era a única bruxa a ocupar seu tempo em costurar, mas enganava-se, pois Minerva (o outro nome de Atena) era ainda mais poderosa que ela, pois tinha ancestralidade divina. As duas se entregaram a uma competição árdua de longas horas. Minerva, por ter origem divina, não aceitava que uma reles mortal pudesse lhe superar, por isso quando viu a tapeçaria da rival tão perfeita em cada detalhe (talvez até superior à sua) precipitou-se sobre o tecido, destruindo-o. Aracne, em desespero por ter sua obra prima destruída, enforcou-se. E assim a mais velha das filhas de Narciso partiu.

Psiquê cuidou bem da rosa, plantando-a em uma pequena porção de terra na casa de seu pai. A nova roseira deu lindas flores, das quais mais tarde a jovem levou algumas mudas para a casa de seu esposo, um homem simples e de muito bom coração, de nome Rafael. Das pequenas mudas nasceram novos pés, e novos foram se criando, e se multiplicando, até o momento em que todo o quintal se tornou um grande roseiral. Certo dia, quando estava sozinha em casa a dedilhar a lira, Psique (já contando seus trinta e dois anos) recebeu a visita de uma mulher já muito velha, que lhe pediu um pouco de água e disse se chamar Fênix. A velhinha ao ver o lindo roseiral nos fundos da casa da gentil senhora que a acolhera perguntou por que os donos daquelas belas rosas não as vendiam e melhoravam a condição de vida. Psique ouviu tudo que a mulher havia dito, e contou ao marido assim que chegou, ele achando uma boa ideia passou a comercializar as rosas e fez fortuna, tornando-se em alguns anos um dos maiores exportadores de flores daquela qualidade no mundo. Em pouco tempo quase todo mundo já havia sentido o aroma das flores provindas de uma empresa no interior de Roma, cujo nome era “Rosas da Fênix”, uma singela e desconhecida homenagem. A irmã do meio viveu feliz por muito tempo ao lado de seu esposo, que mesmo rico jamais deixou de ser um bom homem, e morreu já muito velha, ao lado de seus netos e bisnetos.

O velho Narciso Hitcher morreu desgostoso da vida e depressivo, por ter visto toda a sua descendência submergir na lama. Meses antes de morrer, o Conde enterrou a filha mais velha, a jovem Aracne, a que considerava ter sido a única a se salvar, pois as outras haviam se perdido na vida. Uma entregou-se unicamente a cultuar a própria beleza, o que a deixou fascinada e a fez desaparecer no mundo; a outra, havia se casado, mas com um pobretão, o que para o ganancioso pai das garotas representava nada. E assim partiu o Conde Narciso Hitcher: amaldiçoando o seu casamento do Imnage (a quem culpava pela perdição das filhas) e arrependido por não ter se casado com a bela Sabrina Arquibald dos cabelos cacheados.

Eis que ao ganhar a fortuna Sabrina partiu para o Oriente, onde se aperfeiçoou em magia negra. Um modo de preparar sua vingança contra o namorado que a humilhou tão descaradamente. Dessa forma a bela jovem foi perdendo a juventude para dar lugar a uma máscara de ódio e rancor que lhe corroeram o coração e os sentimentos, e assim, coberta de trevas e escuridão, voltou à Itália. Já em Roma adotou a alcunha de Nêmesis, a Deusa da Vingança, deixando o nome de Sabrina Arquibald em um passado distante e que pouco se lembrava. O plano da mulher era dar às garotas presentes enfeitiçados que arruinariam com a vida delas e conseqüentemente com a do pai, e assim o fez com as duas primeiras. Mas, ao ver o pedido singelo e humilde da terceira garota as lembranças de um tempo distante voltaram à mente dele, e ela foi incapaz de castigar uma alma que tanto a fazia se lembras de se mesma, mas foi só um por um momento, tempo suficiente para que lançasse sobre a rosa um feitiço de prosperidade. Mas seu coração ainda achava que as irmãs mais velhas, e o próprio Hitcher mereciam o castigo.

O arrependimento veio muitos anos depois, quando ela recebeu a notícia da primeira morte entre as filhas, e pensou em contar ao seu velho amor o que havia acontecido, mas o medo da reação dele a impediu. Arrependida, e já gasta pelo tempo Nêmesis ou Sabrina saiu pelo mundo a procurar Cassiopeia para desfazer o encantamento sobre ela, mas nunca chegou a encontrá-la. Como martírio, doou todos os seus bens aos pobres e passou a vagar pelas ruas, sem destino. Morrendo sozinha e arrependida em uma cabana em uma floresta na Albânia. Nunca saberemos se foi Sabrina a Fênix que visitou a mais humilde das irmãs. Ou se Sabrina, Nêmesis e Fênix são as fases de uma mesma mulher que nasceu para o esplendor, caiu em desgraça e renasceu em arrependimento e amor sobre o ódio e a desilusão. Ao fim do conto ficam-nos perguntas: A vingança realmente vale o que nos custa? A humildade ainda é capaz de fazer nascer uma rosa de amor entre pedras de ódio? Ou apenas o arrependimento já tardio é capaz de salvar uma alma? São perguntas que devem ser respondidas por cada um, para si mesmo e dentro de seu coração...

P.S.: Conto escrito em 12 abr. 2011, (: