Sobre homens e crianças egoístas...
Os homens nascem egoístas é a sociedade que o atribui valores. Talvez seja uma audácia desafiar Rousseau e dizer que a célebre frase que apregoava, “o homem é bom, a sociedade é que o corrompe”, não é tão assertiva assim.
Mas, como negar o que podemos observar constantemente nas mais singelas criaturas de nossa raça humana? Pensem em como as crianças são: egoístas, ao ponto de jamais querem dividir os próprios brinquedos. Pensem em como nenhuma delas gosta de se sentir ofuscada pelo brilho de uma nova alma infantil no mesmo espaço. Repare o quanto elas fazem birra ou tentam chamar a atenção com seus choros, gritos. Uma busca desesperada pela atenção adulta.
E mesmo assim, como não amá-las? Como não amar aqueles sorrisos tão inocentes e simples. Como não amar aqueles rostos tão delicados? E como não encher-se de risos como aqueles gargalhadas tão felizes, desprovidos de dentes?
Mas, obviamente, são os homens quem dão molde à sua sociedade. São os humanos quem toldam os valores de honestidade, caridade e humildade. Embora, ainda hoje muitos prefiram seguir seus sentimentos egoístas e infantis, não se pode culpar uma sociedade que define valores éticos de respeito a seus integrantes como culpada pela existência prolongada de homens-criança que ferem esses valores.
Vale ressaltar, essa mesma sociedade ocidental que dignifica a glória do homem, que determina seus valores de honestidade e respeito ao próximo, é a mesma que condena as diferenças e estimula a criação de um tipo único de pessoa, cuja real identidade tende a ser omitida para dar lugar a uma face estereotipada de terrestre.
Mas, essa face, por assim dizer “anômala” da sociedade original, cabe aos que mantém os egoísmos de criança ainda vivos em sua alma já dita tão madura. Mesmo aqueles que tanto têm de adultos e maduros, nos conformes do que essa sociedade prega como valores morais certos, mesmo esses ainda carregam em si a herança de sua infância comodista, porque nós, humanos e falhos, não nascemos para a solidariedade. E a nós somente interessa usufruir de nossa própria felicidade, mesmo que para isso ocorra o holocausto da alegria de outrem.
Os homens sentem-se felizes quando são desejados, pois saber que alguém o deseja o faz sentir poderoso, e é nisso que os humanos se perdem na volta às raízes individualistas de sua alma. Quando alguém os deseja, então sua alegria é realmente plena, porque, às vezes, me parece que nada reconforta mais uma alma que saber que há outra sofrendo mais que ela…
Não fosse por isso, por que tantos comemoraram enquanto Hiroshima queimava nas chamas de uma bomba atômica? Ou tantos riam enquanto degolavam cabeças humanas nos fios de espadas de aço ou prata? Ou mesmo quando o fio da guilhotina degolava reis e rainhas de outrora?
E quando uma pessoa se entristece pela tristeza de outra? Nada mais egoísta que querer ajudar o próximo quando este está em fase de tristeza, pois NÓS, egoístas que somos, temos de tentar garantir o consolo na próxima vez que estivermos em tristeza, NÓS teremos alguém para nos consolar também. Se sofremos pela tristeza de alguém é porque sofremos pelo que nos aconteceu, pelo que nos ocorre, ou pelo que ainda há de vir…
São todos vítimas-algozes. Que a cada momento trocam suas posições em cada relação que mantêm... Ora podem ser vítimas de alguém que sabendo de seus sentimentos lhe faz sofrer... Ora, contudo, pode ser também algoz, ao se ver na posição de amado por outro...
Mas essa é a Roda do Mundo, a Fortuna que derrama sobre a vida seus dissabores e amores. Mas, o importante é que seja vivo… que tenha fé… que aproveite a hora de vítima pra se fazer mais forte, mas não como no intuito de tornar-se algoz. E sim como alguém que, diferentemente dessas vítimas-algozes, mantém sim seus sentimentos egoístas e próprios dos humanos, mas que acumula suas dores na tentativa de não fazer que o próximo seja paciente dos mesmos males que outrora sofrera…