sábado, 22 de setembro de 2012

20:02

Permita-se sentir...

Pressiona teu corpo contra meu, puxa-me pelo cós da calça e tira meus pés do chão. Morde minha pele e deixa-me sentir o cheiro de teu corpo invadir e fundir-se ao meu. Permita-me olhar nos teus olhos e ver a sombra que a lua deixou cair e os tornou negros.

Deixa-me invadir a tua intimidade e acariciar teu corpo, sem medos, sem pudores, sem timidez alguma. 

Deixa que eu empurre teu corpo contra o muro e arranhe a tua pele com minhas unhas, marca meus ombros com tuas mordidas e abre minha camisa com tuas mãos firmes e intensas...

Deixa-me ser todo teu, sem receios de quando o sol chegar...

Puxe minha roupa, pegue meus cabelos, arranque meus sorrisos bobos, deixa-me te chamar para sempre daquilo que me pertence, dedica-me palavras carinhosas e me acorde com seus beijos, ou deixa-me dormir no teu abraço caloroso.

Permita-me sonhar com teu toque e acordar sem saber se foi sonho ou realidade, me abrace enquanto eu durmo, me beije quando eu fechar os olhos... Sinta meus lábios quando o vento tocar sua pele, imagine-me e torne-me real no teus dia...

Deixa que eu te guio quando estiver só, deixa que eu seco tua lágrima, deixa que eu te dou teto quando estiver sem casa, deixa que eu te abraço no seu frio e te ofereço o melhor de mim...

Deixe meu futuro fazer companhia ao teu e vamos juntos trilhar o caminho que escolhermos. Diga-me que estará comigo e eu vou de olhos fechados, porque confio no teu olhar real...

18:09

Sobre um Escorpião que amava centauros... 

Era a primeira vez que o Centauro corria por aquelas planícies e, mesmo assim, parecia conhecer o lugar certo por onde deveria passar, suas patas de equino sabiam exatamente onde tocar para não ferir os pequenos animais que se deslocavam pela grama. Seu passo firme e galope certo e preciso, embora ágeis e rústicos, conseguiam, simultaneamente, serem delicados e elegantes ao amassar a fina relva verde do chão, ainda regada do orvalho da noite.

Às costas, repousado sobre a aljava de flechas, estava o Escorpião. O homem-cavalo o havia, por algum motivo, colocado ali, talvez por achá-lo simpático ou agradável a companhia. O aracnídeo acabara fascinado pelos encantos de sua nobre carona, talvez não pelo  porte físico tão belo e altivo, intrínseco à raça dos centauros, o que mais o havia seduzido na parte humana do arqueiro tinha sido aquele sorriso tão espaçoso, simpático e aconchegante que os traços de sua boca formavam, sintonizados com sua respiração excitantemente ofegante.

O Escorpião sabia que aquilo que o Centauro havia despertado nele não lhe era estranho, mas era curiosamente peculiar, uma vez que, embora já tivesse visto aquele mesmo homem-animal, nunca havia olhado para ele com qualquer interesse, apenas o achava belo e nada além disso. Contudo, depois da proximidade, parecia impossível ter vontade de partir para qualquer outro lugar que não fosse com ele.

Talvez, o que mais estranhava ao Escorpião naquele estranho processo de fascinação era o fato de se tratar de um centauro. O pequeno animal tinha plena consciência de que sua espécie e a raça da fascinante criatura nasceram para se opôr tão vorazmente um ao outro, que a simples divisão do mesmo espaço seria suficiente para fazer quebrarem  pedaços de si mesmo. Mas, o nosso Escorpião jamais entendera o porquê de sempre se deixar levar pelos centauros, e aquele não era o primeiro de sua história.

Embora soubesse que entre os touros encontraria seu mais perfeito local de repouso, que entre os loucos carneiros conseguiria saciar seus desejos mais íntimos, entre os peixes poderia alcançar o paraíso e mesmo com os caranguejos talvez atingisse tudo o que estivesse em busca. Era entre as mais antagônicas criaturas a ele que se sentia absoluto e pleno.

Jamais pôde repetir junto àquele centauro a experiência do galope perfeito, contudo mesmo as lembranças de cada vale que cruzara já lhe saciavam os mais âmagos desejos de sua alma.

“Centauros são livres demais para essa vida, e talvez não sejam o que você precisa, Escorpião”, lhe disse uma vez uma criatura especial que morava num aquário. Contudo, que podia o pequeno animal fazer a respeito? Se nada parecia lhe completar tão bem quanto o maior de seus inimigos? Seria inevitável a atração fatal e o doce perigo que estreitava a união de duas peças tão profundamente antagônicos, tais perigos e mistérios, que aos outros podem soar.  Nosso minúsculo protagonista sabia que a liberdade que os homens-cavalos tinha jamais se sujeitaria ao doce veneno compulsivo, ciumento e íntimo natural dos escorpiões.

Mas, tais lances de amores e atrações tão estranhas apenas resumem pequenas partes da vida humana, afinal, não só na estória, mas também na história, não se encontram sós nossos protagonistas. Também aqui, entre nós, podemos saber de tão estranhas combinações afetivas quanto a singela ironia de um escorpião que amava centauros...

Tempos depois, o Escorpião ousou nadar, num mergulho insano desejou afogar-se no prazer que seu elemento, a água, lhe trazia, quis se perder na infinidade do mar, sem se preocupar com a leveza ou violência com que a correnteza o levava para longe de sua terra natal, para longe até mesmo dos centauros. Mas, na mente fria do aracnídeo, que agora deixava-se embalar pelas águas dos oceanos, os centauros faziam parte de uma lembrança antiga, um desejo velho e meio louco, agora, o pequeno inseto procurava acalento no que o horizonte podia lhe dar...

19:16

Sobre homens e crianças egoístas... 

Os homens nascem egoístas é a sociedade que o atribui valores. Talvez seja uma audácia desafiar Rousseau e dizer que a célebre frase que apregoava, “o homem é bom, a sociedade é que o corrompe”, não é tão assertiva assim.

Mas, como negar o que podemos observar constantemente nas mais singelas criaturas de nossa raça humana? Pensem em como as crianças são: egoístas, ao ponto de jamais querem dividir os próprios brinquedos. Pensem em como nenhuma delas gosta de se sentir ofuscada pelo brilho de uma nova alma infantil no mesmo espaço. Repare o quanto elas fazem birra ou tentam chamar a atenção com seus choros, gritos. Uma busca desesperada pela atenção adulta. 

E mesmo assim, como não amá-las? Como não amar aqueles sorrisos tão inocentes e simples. Como não amar aqueles rostos tão delicados? E como não encher-se de risos como aqueles gargalhadas tão felizes, desprovidos de dentes?

Mas, obviamente, são os homens quem dão molde à sua sociedade. São os humanos quem toldam os valores de honestidade, caridade e humildade. Embora, ainda hoje muitos prefiram seguir seus sentimentos egoístas e infantis, não se pode culpar uma sociedade que define valores éticos de respeito a seus integrantes como culpada pela existência prolongada de homens-criança que ferem esses valores.

Vale ressaltar, essa mesma sociedade ocidental que dignifica a glória do homem, que determina seus valores de honestidade e respeito ao próximo, é a mesma que condena as diferenças e estimula a criação de um tipo único de pessoa, cuja real identidade tende a ser omitida para dar lugar a uma face estereotipada de terrestre.

Mas, essa face, por assim dizer “anômala” da sociedade original, cabe aos que mantém os egoísmos de criança ainda vivos em sua alma já dita tão madura. Mesmo aqueles que tanto têm de adultos e maduros, nos conformes do que essa sociedade prega como valores morais certos, mesmo esses ainda carregam em si a herança de sua infância comodista, porque nós, humanos e falhos, não nascemos para a solidariedade. E a nós somente interessa usufruir de nossa própria felicidade, mesmo que para isso ocorra o holocausto da alegria de outrem.

Os homens sentem-se felizes quando são desejados, pois saber que alguém o deseja o faz sentir poderoso, e é nisso que os humanos se perdem na volta às raízes individualistas de sua alma. Quando alguém os deseja, então sua alegria é realmente plena, porque, às vezes, me parece que nada reconforta mais uma alma que saber que há outra sofrendo mais que ela…

Não fosse por isso, por que tantos comemoraram enquanto Hiroshima queimava nas chamas de uma bomba atômica? Ou tantos riam enquanto degolavam cabeças humanas nos fios de espadas de aço ou prata? Ou mesmo quando o fio da guilhotina degolava reis e rainhas de outrora?

E quando uma pessoa se entristece pela tristeza de outra? Nada mais egoísta que querer ajudar o próximo quando este está em fase de tristeza, pois NÓS, egoístas que somos, temos de tentar garantir o consolo na próxima vez que estivermos em tristeza, NÓS teremos alguém para nos consolar também. Se sofremos pela tristeza de alguém é porque sofremos pelo que nos aconteceu, pelo que nos ocorre, ou pelo que ainda há de vir…

São todos vítimas-algozes. Que a cada momento trocam suas posições em cada relação que mantêm... Ora podem ser vítimas de alguém que sabendo de seus sentimentos lhe faz sofrer... Ora, contudo, pode ser também algoz, ao se ver na posição de amado por outro... 

Mas essa é a Roda do Mundo, a Fortuna que derrama sobre a vida seus dissabores e amores. Mas, o importante é que seja vivo… que tenha fé… que aproveite a hora de vítima pra se fazer mais forte, mas não como no intuito de tornar-se algoz. E sim como alguém que, diferentemente dessas vítimas-algozes, mantém sim seus sentimentos egoístas e próprios dos humanos, mas que acumula suas dores na tentativa de não fazer que o próximo seja paciente dos mesmos males que outrora sofrera…

16:34

Sobre relógios e o tempo...

Sorrisos que duram segundos...

Beijos que se estendem por longos e prazerosos minutos...

Paixão que, entre suor e gemidos de prazer, estendem-se por horas...

Atração e excitação que prolongam-se por dias a fio, vivos na memória...

Namoros que duram mais que meses de carinhos mútuos...

Amor que se estende por anos, transpassam décadas e atravessam o próprio limite da vida...

Há tanto tempo, e há tanto para ser vivido. Tantas sensações que os ponteiros do relógio não podem marcar, mas são obrigados a fazê-los...

Tantas vezes que horas transformam-se em segundos de prazer, e segundos de saudade já parecem durar a anos de solidão.

O tempo é tão breve para tanto que há preciso ser sentido, e tão longo quando se há tão pouco para ser sofrido.

Enquanto escrevo, as horas passam devagar e sinto saudades, ciúmes, amor e vontade, tristeza, dor, carinho e calor, todas as sensações contidas num pequeno e breve espaço de tempo, talvez menos que milésimos de um só segundo...

Ainda acho que confuso é o tempo que me dão para falar, e que muitas vezes as palavras saem sem sentido, e mesmo essas me são estranhamente incompreensíveis. Mas, se escrevo, é pelo prazer de dizer sem preocupações as emoções que as horas me trazem...

Leiam, gastem as horas ou os minutos que quiserem...

Descubram o que os segundos do MEU RELÓGIO DE BOLSO insistem em contar sem pudores...