Da folha incinerada...
O vento lhe sussurrava palavras
tão bonitas e lhe tocava com o sopro gelado vindo do norte, aquecendo-a em
seguida com o hálito quente que o álcool fazia surgir... Quando das rajadas
mais fortes, ela permanecia firme, agarrada à árvore que lhe fizera viva. Mas,
ainda sim, era apenas folha e se deixou levar pelo sopro do vento...
Então, voou... Entregou-se de tal
modo ao deslizar do vento que se permitiu levar por toda a parte... Passou por
rios, deixou a noite banhar de sereno o corpo verde, passou pelas matas e pelos
campos, encantado com o toque suave que o ar lhe dava. Era incrível como era
tudo mágico, o vento a sabia fazer girar, rodar, vibrar... O vento fez a folha
sentir-se livre, presa, completa, parte do todo, pela primeira vez na sua curta
vida...
Então, o chão lhe pegou... O
vento parou de soprar para ela, havia mais árvores esperando para serem
desfolhadas por ele. O solo a colheu e lhe deu conforto, carinho e a atenção
que a pobre folha só esperava do vento que a tornara folha viajante. Mas, mesmo
todo o carinho do chão era desconfortável e a própria folha rolou sozinha pelo
chão e subiu na pedra, de pontas afiadas, que a cortaram e feriam, mas ainda
lhe faziam mais bem que o carinho vindo da terra...
Então, de cima da pedra, o vento
a tomou novamente para dançar... E ela foi, jogou-se no vento mais uma vez,
tentando acreditar que dessa vez seria diferente, mas os voos dessa vez foram
maiores e mais altos, ele a fez tocar as nuvens e mais uma vez a pequena folha
pode sentir o carinho do vento no seu corpo, apenas mais uma vez...
Então, ela caiu mais uma vez.
Mais uma vez desceu ao solo, dessa vez caiu no asfalto e decidiu por si só e
aquela seria a última vez... Nas bordas do asfalto, nos cantos da estrada, viu
o chão querendo acolhê-la de volta, viu novas flores querendo perfumá-la e
ainda algumas árvores querendo abrigá-la nas sombras de suas copas...
Mas todo o aconchego do mundo era
inútil longe do vento frio e do sopro quente... Agora a folha verde já era
seca. Seca demais para que o vento se importasse com ela mais alguma vez, mas
caso se importasse, seria tarde demais...
Girou pelo asfalto quente,
procurou o sol entre os astros celestes, implorou ao Astro-Rei o máximo de seu
calor. Sentiu então o corpo ficar cada vez mais quente e, finalmente, a folha
se incinerou... Entre as chamas pequenas e rápidas, tornou-se cinzas...
Ninguém soube por que a folha se
foi, ninguém nunca entendeu suas últimas escolhas e, a menos que o próprio
vento sussurre entre os trigos, talvez o segredo tenha partido mesmo com ela e virado
cinzas...