segunda-feira, 24 de setembro de 2012

17:49

Te jogar no vento...

Se eu te jogasse para cima, você partiria com o vento? Migraria com os pássaros para não mais voltar? Ou diria que o vento não te faz também? Que os pássaros são simples demais para esse teu sorriso avoado e rouco?

Se te jogasse no mar, você nadaria para longe da costa? Mergulharia para sempre com os cardumes? Ou voltaria dizendo que te enxugasse, para não ficar resfriado? Diria que mesmo os peixes não sabem nadar com a força com que teus olhos prendem?

Mas, como posso cobrar tanto de você?

Não há como cobrar a volta de quem nunca sequer veio? Que direitos tenho eu sobre você que nunca me pertenceu? Como poderia pedir para que se importasse com minhas lágrimas, quando nem ao menos tive a chance de te dar sorrisos carinhos quando estava deitado em meu colo?

Como lidar com essa vontade insana de chamar de “meu” tudo aquilo que não posso ter?

Mas, tenho ciúmes do passado que faz parte da tua memória, do presente que te toca, do futuro em que te vejo ainda mais distante de tornar-se meu...

Queria te encontrar voando, perdido no ar de novo. Poder capturar teu riso nos meus lábios, teus dedos na minha pele e guardar tua gargalhada mais feliz para mim. Manter teus olhos fechados, para que percebesse além dos que os sentidos pudesse te dar o desejo que parte de mim para teu coração.

Saudades de quando me pegava pela mão e olhava nos meus olhos e eu conseguia ver que o mundo não tinha mais sentido sem a sua presença. Saudades da tua mão escorregando por meu corpo, sem qualquer receio da luz que viesse a invadir o quarto. Saudades de quando eu te acordava sorrindo e tua cara bêbada de sono me pedia para fechar as cortinas porque a luz incomodava...

Saudades de um desejo que jamais será concreto, de um tempo que o futuro não trará. Mas, dizem que o tempo tudo sara, e se tenho saudades dos desejos que tenho com você, ainda hão de ser todos esses desejos também saudosos, hei então de poder sorrir e ver tua felicidade sem incomodá-la, afinal, faço questão do teu corpo, da tua presença, dos teus beijos,  mas faço muito mais questão ainda do teu sorriso infindável, seja lá onde quer que você o encontre...

01:33

Então, sofra sua dor em silêncio...

E tudo aquilo que não pode partir sozinho, pode ser arrancado. Então, enfia a mão quente em teu coração e arranca do peito, a sangue frio, o sentimento que tinge como tatuagem a beleza rubra de teu órgão pulsante. Se as cores não se vão por liberdade, que saíam à força, arrancadas pelo poder te teus punhos. 

Arranca do mesmo modo como se arranca um inseto parasita que consome tua essência e não deixa tua mente trabalhar, deixando a ébria de sono e desejo. Se os dedos não tiverem força suficiente parar tirar a mancha negra de teu órgão, então o arranque com a própria adaga, crave na carne vermelha a lâmina fria e deixe o sangue escorrer pela branca e lavar as vontades de qualquer desejo. Revire a faca, gire-a, enfinque-a com força dentro de teu próprio corpo e gire-a sem receios, remexa para todos os lados. Que a ferida doa, que seja teu sofrimento quase tangível na tua alma, mas arranca de ti toda a mancha...

Deixe que a ferida profunda seja feita sem anestesias, deixe a dor tomar conta de tua alma e sofra sem gritar uma única vez teu pranto. Deixe-a cicatrizar sem sal e pimenta, deixe-a exposta a qualquer dor mínima e menor, deixe que a toquem, que a façam sangrar e aprenda a agüentar toda o sofrimento sem reclamar com uma lágrima sequer.

Não há a necessidade de curativos e enfermeiros, tu, sozinho, sem ajuda, ainda és capaz de cuidar da tua dor, exposta na carne podre de teus órgãos. Teu coração pode muito bem ficar exposto e ferido, de modo que qualquer um pode fazê-lo parar de bater com o único toque, um toque mínimo de mãos dadas.

Confia nos teus deuses, nos teus mestres, confia no teu único aliado de sempre, o Tempo. Talvez, ele seja lento e complexo em seu processo de cura, e pode ser que a cicatrização doa ainda mais dentro de teu peito que a própria ferida, mas Ele há de te fazer novamente sorrir sem deixar derramar uma gota de sangue silencioso...