Entre gueixas, ditaduras e espartilhos
Todos os dias,
ao ligar a TV, passear pelas páginas da Internet, ou mesmo andando pelas ruas, o
homem contemporâneo se depara com a ditadura de um novo padrão estético: o
magro e bem definido. Eis que os humanos veem-se diante de uma luta na busca
pela aceitação nos padrões de beleza midiáticos atuais. Contudo, a criação dessas
normas estéticas não é uma realidade da sociedade ocidental contemporânea, tais
normatizações são atemporais e universais, relacionando-se sempre aos
interesses de uma elite e às necessidades dessa.
Entre as
comunidades primitivas, a beleza feminina era associada à fertilidade
reprodutiva, ou seja, seios e quadris fartos. Há menos de um século, a
sociedade chinesa ainda se orgulhava de suas gueixas, as quais mais que belas
concubinas, eram ícones de delicadeza e mártires na busca pela perfeição
estética. Não diferentes, as europeias da Era Vitoriana se sujeitaram às atrozes
deformações físicas proporcionadas pelos tão conhecidos espartilhos.
O século XXI,
marcado pela formação de uma sociedade urgente, deu margem para o surgimento de
um novo padrão estético que atendesse à agilidade industrial do sistema capitalista,
trazendo de volta o ideal greco-romano de corpos magros e perfeitamente simétricos,
substituindo a mágica tortura das cintas vitorianas pelos pesados e
sofisticados mecanismos da academia. A indústria da moda, aliada à mídia, tolda
as visões modernas de modo a influenciar gastos absurdamente altos com cirurgias
plásticas, academias, maquiagens e vestuário, tendendo a sociedade para um
padrão único físico e comportamental.
Buscar a
aceitação torna-se uma atividade inerente à vontade humana a partir do momento em
que a influência das mídias globais é extrema. Tentar desvincular-se dessa
modelagem de gostos e vontades é entregar-se a olhares tortos da cúpula capitalista
industrial e de seus consumidores alienados. Se voltarmos a Platão, que
apregoava ser a beleza a única ideia que transcendia do plano metafísico, o
real valor do belo vai muito além do que pode ser oferecido por espartilhos e
bisturis, é uma conotação de bem estar espiritual consigo mesmo.