segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

23:58

E eu era ruim de matemática
  
Entre uma e outra faixa do MP4 que eu toco por aí, Vanessa da Mata já havia me dito que todo mundo quer um alguém para amar. Mas, “alguém” é uma palavra abstrata e estranhamente vazia, então, resolvi acreditar que eu queria um amor maior, um amor até mesmo maior que eu. Mas, as certezas que eu tinha do que era esse “maior” estavam ainda tão confusas que, na precipitação adolescente que ainda mantenho nos meus quase 20 anos, acreditei que era fundamental a sintonia das afinidades.

Para ser sincero, nunca acreditei muito nessa tal lei da Física que diz que “os opostos se atraem”. Por alguma razão, não me parecia nem próxima da realidade a ideia de que as diferenças e distinções pudessem ser ingredientes tão essenciais para criar essa poção a que chamamos de paixão, talvez, amor. E ignorar os princípios dessa lei foi o que me fez acreditar na ilusão de que “maior” era “igual”. Nunca fui lá muito bom em matemática.

Então, apareceu você. Não nas aulas de matemática, mas no intervalo entre a aula de Poções e a de Transfiguração. E foi incrível, se não estranho ou engraçado, ter encontrado alguém tão maior, tão igual a mim. Mas, como eu podia imaginar, a princípio, as possibilidades do corvo e da serpente? 

E, depois de tanto tempo sem sentir cheiro algum na Amortentia, eu senti cheiro de pasta de dente. Por mais clichê que isso possa parecer. Não era uma afinidade que se resumia aos gostos musicais, literários e artísticos. Mais que isso, éramos iguais em modos. O mesmo jeito tímido, sem jeito, desajustado, talvez, até mesmo o jeito desengonçado (embora eu reconheça que seja impossível igualar-se a mim no quesito destrambelhado). Mas, éramos assim. Iguais. Iguais demais para os filhos de Salazar e Rowena. E até mais do que eu conseguia enxergar.

E, se a química acontecia antes dos primeiros toques, o primeiro beijo consumou o encanto (seria essa a palavra certa?). A princípio, não foi a química do beijo perfeito que tira o fôlego, mas foi de tal modo fascinante que o momento se perdeu nas sensações. Mais uma vez eu conseguia sentir o nervosismo adolescente, o frio na barriga, as borboletas fazendo revoadas no estômago e toda emoção da surpresa se misturando com a sensação até mesmo infantil de sentir o mundo parar no momento do toque.

Mas éramos iguais demais. Como um corvo que rasteja e uma serpente que voa. As diferenças e as distinções das Casas ficavam em algum lugar sob as carteiras enquanto o caldeirão das minhas sensações borbulhava, mesmo diante do fogo baixo sobre o qual ele estava aquecendo. Isso não constava nos efeitos colaterais da Amortentia. Ou eu passei despercebido demais pela receita e não percebi que a poção podia borbulhar em fogo baixo?

Eu não consegui enxergar que nós não formávamos um casal. Era difícil entender que, ao tempo que eu observava sua respiração lenta enquanto dormia, você sonhava com as surpresas e as descobertas daquilo que é desconhecido e pouco previsível. O igual parecia tão maior. Tão o “alguém” que eu tinha ouvido na canção que eu me perdi de cegueira pelo momento. Mas, você entendia melhor de matemática que eu. E, se eu achava que maior era igual, você já sabia que igual é igual. E, pra você, das igualdades, amizade. 

Eu deveria ter escolhido frases melhores para mim. Pensado mais em “alguém que me transborde” e menos naquilo que dizia que “os opostos se distraem e os dispostos se atraem”. Deveria ter tentado não desafiar as leis da Física e passado menos tempo procurando a perfeição das semelhanças e dedicado mais horas a achar a graça e divertimento das diferenças. Menos tempo acreditando que reler livros acrescenta e mais tempo tentando ler outros. Não pensava (e talvez nem pense ainda) que um gênero diferente também pode fazer bem. Menos tempo escrevendo um epitáfio e mais me preocupando em rabiscar minha vida de algum jeito torto que foge à linha porque, sim, sou assim destrambelhado. Ou, talvez, eu só precisasse mesmo ter ido a menos aulas de Feitiços e um pouco mais às aulas de matemática.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

16:47

Esplendor, vingança e resgate...

Era uma jovem bela, de longos cabelos dourados que lhe caíam em ondas sobre os ombros finos e delicados. A pele clara como a neve que cai no inverno reluzia no lindo contraste com os olhos de um azul tão profundo e misterioso quanto o dos oceanos. Vivia junto a uma velha tia, Agnes Arquibald, em uma humilde casa no interior da Cidade de Roma. A jovem, mesmo tendo nascido no seio da miséria, comportava-se tão bem quanto a mais graciosa das damas parisienses, tão aclamadas na época; ao passear pelas praças italianas a menina parecia flutuar em meio ao revoar de suas delicadas e simplórias vestimentas pobres, seu andar era gracioso; o movimentar de seus braços delicados era acompanhado por todos nas ruas que paravam para admirá-la, seus lábios deixavam revelar um sorriso de dentes perolados e davam o toque final à composição prima. A italiana amava as flores, pois as considerava símbolo da pureza do mundo, do amor, da beleza e da verdade. Amava, principalmente, as rosas, do mesmo modo como a flauta ama a música. Seu nome era Sabrina Arquibald. Dona de poderes mágicos invejáveis em toda a comunidade bruxa, Sabrina era a personificação da própria perfeição para a sociedade da época: perfeita mulher, perfeita dama, perfeita diplomata e perfeita feiticeira.

Muitos eram os que se encantavam pela jovem, e muitos também eram os galanteios que recebia. Ora que a menina sabia que nenhum dos nobres homens que a ela se apresentavam possuía o interesse de firmar-se em um casamento, posto a consistência da pobreza da garota não a possibilitasse de ofertar um dote digno. Mas, eis que, a italiana acabou por sucumbir aos galanteios apaixonados de Narciso Hitcher. Os dois estiveram enamorados e juntos pelo preciso tempo de cinco meses, momento em que o homem alegou ter de fazer uma viagem à França, e lá permaneceria por três meses. Contudo, passado o tempo esperado o jovem não retornou e, sofrendo como que em dores de parto, a menina agonizou em penosos choros pelo amado desaparecido. Um mês S e passou, e a jovem, aparentando sinais de melhora em sua saúde física e mental, voltou às ruas. Pobre garota, antes tivesse permanecido dentro de sua confortável residência! Toda a Roma estava esbaforida com a notícia do casamento da filha do prefeito da cidade, a jovem Imnage Bellami, com o distinto cavalheiro que atendia pelo nome de Narciso Hitcher. A doce Sabrina mal teve tempo de calcular o peso da notícia que lhe fora jogada sobre os ombros, pois no mesmo dia um senhor em Direito lhe procurou para informar que a menina havia herdado uma fortuna invejável, herança de um parente distante que havia acabado de falecer.

Com a posse do dinheiro, a menina cedeu um pouco de sua fortuna para a velha tia e deixou a terra onde nascera, mas não sem antes jurar vingança ao namorado que a deixara. Ninguém teve mais notícias da jovem bruxa por muito tempo, tendo ela sido totalmente esquecida pelas pessoas daquela cidade. Enquanto isso, ainda em Roma, a família que Narciso construíra florescia em perfeita harmonia e, da união entre ele e sua esposa rica, três lindas meninas nasceram: Aracne, Psiquê e Cassiopéia. Contavam as jovens dezenove, dezessete e quinze anos, respectivamente, quando surgiu em Roma uma ilustre senhora, que a todos se fez apresentar com o nome de Nêmesis. Ninguém na cidade jamais a havia visto, agia sempre por intermédio dos muitos súditos que estavam ao seu dispor, e mesmo quando chegou à pólis em uma carruagem negra não se fez mostrar, pois uma longa capa de cor anil ocultava-lhe todo o rosto e o corpo. Mesmo assim, todos puderam notar que se tratava de uma dama ilustre, pois seu andar demonstrava a altivez de quem já estivera nos bailes mais luxuosos da Europa.

Contava o mês de março com quinze dias quando a nova moradora anunciou, por intermédio de um de seus lacaios, que dali a treze dias daria em sua nova residência um baile de máscaras, para o qual os mais nobres cortesãos da sociedade italiana estariam convidados. A família dos Hitcher contava de grande prestígio dentro de Roma e por isso não deixou de ser convidada à festa. Por uma estranha coincidência, no dia marcado para o aguardado baile abateu-se sobre o Conde e a Condessa (como passaram a ser conhecidos Narciso e Imnage) uma estranha virose que os impediram de ir ao festejo, contudo suas filhas que gozavam de plena saúde partiram. Vestidas magnanimamente lá se foram as três jovens, e lá chegando o baile corria a todo o vapor. As mais belas melodias eram tocadas, as luzes tinham sobre si lindos efeitos mágicos e o mais puro vinho era servido em finas taças de cristais que jamais se secavam. Minutos após terem chegado, as três meninas foram convidadas a ir ao gabinete da anfitriã da festa e, é claro, que todas elas se mostraram muito curiosas para saber o que deseja a misteriosa mulher com elas.

Lá chegando foram acolhidas pela dama que lhes disse ter sabido por intermédio de amigos que estavam sendo versadas em magia em uma renomada escola para bruxas. As jovens confirmaram o boato e foram solicitadas a resolver um enigma proposto pela anfitriã. Tratava-se de uma charada facílima e que as jovens, inteligentes como eram, solucionaram rapidamente. A dama, que até o momento havia permanecido de costas às meninas, virou-se para elas e deixou cair o capuz da capa escarlate que lhe cobria o corpo. A mulher apresentava uma pele morbidamente branca, e os olhos de um vermelho tão intenso quanto o manto que a cobria. Seus cabelos lisos e de uma cor que em muito se aproximava do branco caía-lhe até o meio das costas, a boca deixava à mostra um sorriso irônico e simultaneamente acolhedor. A mulher então pediu que elas escolhessem que recompensa iriam querer ganhar por terem demonstrado tamanha destreza na resolução do enigma.

A primeira a se manifestar foi a mais nova delas, Cassiopéia, que querendo humilhar a velhice da senhora pediu um espelho mágico, no qual pudesse sempre mirar a beleza daquele dia por mais que envelhecesse, o pedido foi aceito e com um leve aceno da varinha da anfitriã foi aceito. Aracne, a irmã mais velha, reparando no modo frágil e sem segurança com que a ancião segurava o condão quis humilhá-la ainda mais e pediu um aro, para que pudesse bordar sempre as mais belas peças, um aro que deixasse sempre jovens e altivos os dedos da moça, e assim o pedido dela foi atendido. Psiquê, a irmã do meio, era dona de uma humildade sem tamanho e deixou que as irmãs se antecipassem nos pedidos. Quando as outras duas já haviam pedido, a menina se levantou e disse meigamente que nada merecia por ter resolvido um enigma tão fácil, mas que estaria satisfeita se a dona da mansão cedesse-lhe uma das belas rosáceas vermelhas que haviam no jardim daquela casa, e que vira ao entrar. A mulher parecendo um pouco abalada perante aquele pedido fez surgir sobre a sala uma flor de pétalas cor de carmim. Logo depois do último desejo ser atendido, as moças foram dispensadas, mas, antes de sair, Psiquê dirigiu um último olhar à mulher e pensou ter visto um olhar marejado e azul sobre o vermelho de ódio nos olhos da mulher.

Depois daquele baile, cada irmã seguiu a sua vida, fazendo as escolhas que julgavam importantes. E eis o que aconteceu a cada uma delas:

Cassiopéia, que havia escolhido o espelho, envelheceu como qualquer pessoa normal, mas jamais se deu conta disso. O seu espelho continuava a mostrá-la tão jovem quanto fora aos quinze anos, não a deixando saber de sua verdadeira condição de anciã. Quando ainda era jovem a garota viajou para terras distantes, para fazer sucesso com sua beleza. Mas a ruína da mais nova das irmãs veio quando ela teve a audácia de desafiar as belas ninfas do mar, aclamando-se mais bela que todas elas. As deusas sentiram-se de tal modo ofendidas pelo desafio que mandaram à terra um grande espelho, quando a solteirona (a jovem Cassiopéia nunca se casou por achar que nenhum homem merecesse a sua beleza) viu-se como realmente era no espelho das ninfas, enlouqueceu. E em um ato de insanidade jogou-se ao mar, onde teve o corpo devorado por monstros marinhos enviados pelo próprio Poseidon (Deus-Mar) para punir a mulher. E assim morreu a mais jovem das filhas de Narciso.

Aracne não chegou a viver tanto quanto a irmã, pois tendo escolhido o tear morreu no auge de seus vinte e sete anos. Tendo se casado com um homem arrogante e extremamente rico, a jovem passava todo o seu tempo se distraindo na construção dos mais finos bordados já vistos em toda a Itália, ou mesmo na Europa ou Índia. Arrogante como era, a hábil costureira ousou desafiar a maior tecelã que havia em toda em Europa, Atena. Aracne valia-se de achar que era a única bruxa a ocupar seu tempo em costurar, mas enganava-se, pois Minerva (o outro nome de Atena) era ainda mais poderosa que ela, pois tinha ancestralidade divina. As duas se entregaram a uma competição árdua de longas horas. Minerva, por ter origem divina, não aceitava que uma reles mortal pudesse lhe superar, por isso quando viu a tapeçaria da rival tão perfeita em cada detalhe (talvez até superior à sua) precipitou-se sobre o tecido, destruindo-o. Aracne, em desespero por ter sua obra prima destruída, enforcou-se. E assim a mais velha das filhas de Narciso partiu.

Psiquê cuidou bem da rosa, plantando-a em uma pequena porção de terra na casa de seu pai. A nova roseira deu lindas flores, das quais mais tarde a jovem levou algumas mudas para a casa de seu esposo, um homem simples e de muito bom coração, de nome Rafael. Das pequenas mudas nasceram novos pés, e novos foram se criando, e se multiplicando, até o momento em que todo o quintal se tornou um grande roseiral. Certo dia, quando estava sozinha em casa a dedilhar a lira, Psique (já contando seus trinta e dois anos) recebeu a visita de uma mulher já muito velha, que lhe pediu um pouco de água e disse se chamar Fênix. A velhinha ao ver o lindo roseiral nos fundos da casa da gentil senhora que a acolhera perguntou por que os donos daquelas belas rosas não as vendiam e melhoravam a condição de vida. Psique ouviu tudo que a mulher havia dito, e contou ao marido assim que chegou, ele achando uma boa ideia passou a comercializar as rosas e fez fortuna, tornando-se em alguns anos um dos maiores exportadores de flores daquela qualidade no mundo. Em pouco tempo quase todo mundo já havia sentido o aroma das flores provindas de uma empresa no interior de Roma, cujo nome era “Rosas da Fênix”, uma singela e desconhecida homenagem. A irmã do meio viveu feliz por muito tempo ao lado de seu esposo, que mesmo rico jamais deixou de ser um bom homem, e morreu já muito velha, ao lado de seus netos e bisnetos.

O velho Narciso Hitcher morreu desgostoso da vida e depressivo, por ter visto toda a sua descendência submergir na lama. Meses antes de morrer, o Conde enterrou a filha mais velha, a jovem Aracne, a que considerava ter sido a única a se salvar, pois as outras haviam se perdido na vida. Uma entregou-se unicamente a cultuar a própria beleza, o que a deixou fascinada e a fez desaparecer no mundo; a outra, havia se casado, mas com um pobretão, o que para o ganancioso pai das garotas representava nada. E assim partiu o Conde Narciso Hitcher: amaldiçoando o seu casamento do Imnage (a quem culpava pela perdição das filhas) e arrependido por não ter se casado com a bela Sabrina Arquibald dos cabelos cacheados.

Eis que ao ganhar a fortuna Sabrina partiu para o Oriente, onde se aperfeiçoou em magia negra. Um modo de preparar sua vingança contra o namorado que a humilhou tão descaradamente. Dessa forma a bela jovem foi perdendo a juventude para dar lugar a uma máscara de ódio e rancor que lhe corroeram o coração e os sentimentos, e assim, coberta de trevas e escuridão, voltou à Itália. Já em Roma adotou a alcunha de Nêmesis, a Deusa da Vingança, deixando o nome de Sabrina Arquibald em um passado distante e que pouco se lembrava. O plano da mulher era dar às garotas presentes enfeitiçados que arruinariam com a vida delas e conseqüentemente com a do pai, e assim o fez com as duas primeiras. Mas, ao ver o pedido singelo e humilde da terceira garota as lembranças de um tempo distante voltaram à mente dele, e ela foi incapaz de castigar uma alma que tanto a fazia se lembras de se mesma, mas foi só um por um momento, tempo suficiente para que lançasse sobre a rosa um feitiço de prosperidade. Mas seu coração ainda achava que as irmãs mais velhas, e o próprio Hitcher mereciam o castigo.

O arrependimento veio muitos anos depois, quando ela recebeu a notícia da primeira morte entre as filhas, e pensou em contar ao seu velho amor o que havia acontecido, mas o medo da reação dele a impediu. Arrependida, e já gasta pelo tempo Nêmesis ou Sabrina saiu pelo mundo a procurar Cassiopeia para desfazer o encantamento sobre ela, mas nunca chegou a encontrá-la. Como martírio, doou todos os seus bens aos pobres e passou a vagar pelas ruas, sem destino. Morrendo sozinha e arrependida em uma cabana em uma floresta na Albânia. Nunca saberemos se foi Sabrina a Fênix que visitou a mais humilde das irmãs. Ou se Sabrina, Nêmesis e Fênix são as fases de uma mesma mulher que nasceu para o esplendor, caiu em desgraça e renasceu em arrependimento e amor sobre o ódio e a desilusão. Ao fim do conto ficam-nos perguntas: A vingança realmente vale o que nos custa? A humildade ainda é capaz de fazer nascer uma rosa de amor entre pedras de ódio? Ou apenas o arrependimento já tardio é capaz de salvar uma alma? São perguntas que devem ser respondidas por cada um, para si mesmo e dentro de seu coração...

P.S.: Conto escrito em 12 abr. 2011, (:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

00:00

"Queria ser o motivo do teu mais lindo sorriso, mas sozinho sei que não consigo."

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

11:21

Da folha incinerada...

O vento lhe sussurrava palavras tão bonitas e lhe tocava com o sopro gelado vindo do norte, aquecendo-a em seguida com o hálito quente que o álcool fazia surgir... Quando das rajadas mais fortes, ela permanecia firme, agarrada à árvore que lhe fizera viva. Mas, ainda sim, era apenas folha e se deixou levar pelo sopro do vento...

Então, voou... Entregou-se de tal modo ao deslizar do vento que se permitiu levar por toda a parte... Passou por rios, deixou a noite banhar de sereno o corpo verde, passou pelas matas e pelos campos, encantado com o toque suave que o ar lhe dava. Era incrível como era tudo mágico, o vento a sabia fazer  girar, rodar, vibrar... O vento fez a folha sentir-se livre, presa, completa, parte do todo, pela primeira vez na sua curta vida...

Então, o chão lhe pegou... O vento parou de soprar para ela, havia mais árvores esperando para serem desfolhadas por ele. O solo a colheu e lhe deu conforto, carinho e a atenção que a pobre folha só esperava do vento que a tornara folha viajante. Mas, mesmo todo o carinho do chão era desconfortável e a própria folha rolou sozinha pelo chão e subiu na pedra, de pontas afiadas, que a cortaram e feriam, mas ainda lhe faziam mais bem que o carinho vindo da terra...  

Então, de cima da pedra, o vento a tomou novamente para dançar... E ela foi, jogou-se no vento mais uma vez, tentando acreditar que dessa vez seria diferente, mas os voos dessa vez foram maiores e mais altos, ele a fez tocar as nuvens e mais uma vez a pequena folha pode sentir o carinho do vento no seu corpo, apenas mais uma vez...

Então, ela caiu mais uma vez. Mais uma vez desceu ao solo, dessa vez caiu no asfalto e decidiu por si só e aquela seria a última vez... Nas bordas do asfalto, nos cantos da estrada, viu o chão querendo acolhê-la de volta, viu novas flores querendo perfumá-la e ainda algumas árvores querendo abrigá-la nas sombras de suas copas...

Mas todo o aconchego do mundo era inútil longe do vento frio e do sopro quente... Agora a folha verde já era seca. Seca demais para que o vento se importasse com ela mais alguma vez, mas caso se importasse, seria tarde demais...

Girou pelo asfalto quente, procurou o sol entre os astros celestes, implorou ao Astro-Rei o máximo de seu calor. Sentiu então o corpo ficar cada vez mais quente e, finalmente, a folha se incinerou... Entre as chamas pequenas e rápidas, tornou-se cinzas...

Ninguém soube por que a folha se foi, ninguém nunca entendeu suas últimas escolhas e, a menos que o próprio vento sussurre entre os trigos, talvez o segredo tenha partido mesmo com ela e virado cinzas...

sábado, 3 de novembro de 2012

14:59

Do lado de cá do muro...

Imaginava a pureza de nossos abraços e a sinceridade de olhares trocados enquanto os corpos se atritavam na dança que braços e lábios coreografavam ao vento escuro da noite que protegia as carícias que nossos beijos ditavam um ao outro, num perfeito encaixe de mim e você que, embora difícil de ser entendido, podia ser sentido de uma maneira estranhamente excitante por todos as parte do meu corpo e fazia arrepiar todos os pelos dele...

Mas, tão de repente quanto os poucos minutos em que pertencíamos um ao outro, a inocência se foi, ficou perdida em algum canto, talvez num toque antigo... De repente, tudo pareceu tornar-se desconhecido, frio, distante e estranho. Sem mais palavras de afeto ou carinhos viajantes na madrugada, sem toques suaves ou sorrisos sincero de uma estranha paixão partilhada por dois e que nutria mordidas e arranhões nunca antes sentido em cada arrepio de pele...

Algo que se pôs como um muro entre nós e pelas pequenas frestas na pedra não é possível senti-lo completo e absoluto, apenas em pedaços, fragmentos do teu sorriso, dos teus olhares e dos teus jeitos. Pelas frestas do muro, não era mais possível sentir o carinho e a intensidade de nós dois, apenas fragmentos de uma lembrança que insistia em manter-se viva na mente, apesar da distância e da inalcançabilidade com que você se transformou num cubo de gelo, para sempre dentro de sua própria forma.

Então, tuas lágrimas caíram, os lábios que eu pude sentir doces, agora sentiam o gosto salgado que vinha da água que teus olhos faziam escorrer por tua pele e tudo que eu desejava era poder enxugá-las, sem medo de tentar devolver o antigo sorriso que desenhava tão bem teu rosto e o tornava ainda mais belo...

Mas, talvez, já tenha encontrado outros lenços, de mãos mais carinhosas e menos complicadas, que tenham te guiado para mais distante ainda do muro, de onde não posso te tocar, apenas ver. De cá, ficou eu, torcendo para teu sorriso se fazer constante de novo, provido de quais risos que fossem. Do lado de cá, meus olhos espiam pelas imperfeições da construção, tentam mirar nos detalhes do teu corpo que se sintoniza com as batidas cada dia mais felizes do teu coração. De cá, de olhos marejados, sorrio, sei que está tudo bem com seus sorrisos e isso me basta para ficar tranquilo, mesmo que nenhum deles se lembre ou reconheça mais os olhos que, das sombras, espia pelo buraco do muro...   

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

00:14

Busca...

Os lábios se encontram e os beijos se alternam com sussurros de amor ao pé do ouvido, os sorrisos sinceros e as brincadeiras que dão origem aos risos fáceis de sua cumplicidade de casal E deixam o toque do mundo feliz espalhando gargalhadas fiéis pelo círculo verdadeiro do pequeno espaço.

Mesclados de amor, amizade, frustração e lágrimas tomam os olhos, enquanto a mente que não ama tenta aceitar e conformar-se com a verdade que o mundo insiste em colocar frente à sua visão. Conformar-se com a cumplicidade amiga de passos que caminham numa única direção, enquanto os tortos pés daquele que caminha sozinho não conseguem manter a direção sem quedas ou feridas feitas pelas pedras.

Em tantos momentos, as cordas de imaginação e visão real alternam-se na arte de flagelar a mente e tentar fazer correr os rios de sal pela face que resistia a todo custo e respirava profundamente, por vezes escondido, para não deixar as manchas salgadas marcarem sua pele...

Então, a busca pelo afeto, pelo carinho e pela satisfação plena de físico e espírito se faz presente... Os sabores que agora se desenrolam conseguem despertar emoções fortes sobre o conforto das almofadas, por vezes arrepios intensos e mesmo suspiros profundos de respirações ofegantes, mas nada que consiga suplantar a lembrança das prazerosas sensações do desconforto que as pedras e as folhas marcando e riscando os corpos conseguiram fazer...

A busca pelo toque, pelo brilho, pelo mesmo sorriso... Mesclam momentos de olhos abertos e realidade com a figura sombria na noite escura que o vento toca para a visão sobre as pálpebras... A insistência que a imagem do riso bobo e dos beijos na lua tem de permanecer na mente impedem que a realidade seja sentida tão intensa quanto precisava de fato ser...

Mas, há permissões há serem feitas, a força dos olhos e dos pensamentos será suplantada assim que os carinhos conseguirem atingir a parte íntima que guarda o prazeroso segredo do outro toque e ele possa ser guardado num canto especial da memória, como lembrança de sensações que se eternizarão com doces encantos de olhos e sorrisos brandos, sem culpas e ressentimentos... Apenas boas lembranças de ótimas sensações...
  

domingo, 30 de setembro de 2012

13:39

Entre gueixas, ditaduras e espartilhos

Todos os dias, ao ligar a TV, passear pelas páginas da Internet, ou mesmo andando pelas ruas, o homem contemporâneo se depara com a ditadura de um novo padrão estético: o magro e bem definido. Eis que os humanos veem-se diante de uma luta na busca pela aceitação nos padrões de beleza midiáticos atuais. Contudo, a criação dessas normas estéticas não é uma realidade da sociedade ocidental contemporânea, tais normatizações são atemporais e universais, relacionando-se sempre aos interesses de uma elite e às necessidades dessa.

Entre as comunidades primitivas, a beleza feminina era associada à fertilidade reprodutiva, ou seja, seios e quadris fartos. Há menos de um século, a sociedade chinesa ainda se orgulhava de suas gueixas, as quais mais que belas concubinas, eram ícones de delicadeza e mártires na busca pela perfeição estética. Não diferentes, as europeias da Era Vitoriana se sujeitaram às atrozes deformações físicas proporcionadas pelos tão conhecidos espartilhos.

O século XXI, marcado pela formação de uma sociedade urgente, deu margem para o surgimento de um novo padrão estético que atendesse à agilidade industrial do sistema capitalista, trazendo de volta o ideal greco-romano de corpos magros e perfeitamente simétricos, substituindo a mágica tortura das cintas vitorianas pelos pesados e sofisticados mecanismos da academia. A indústria da moda, aliada à mídia, tolda as visões modernas de modo a influenciar gastos absurdamente altos com cirurgias plásticas, academias, maquiagens e vestuário, tendendo a sociedade para um padrão único físico e comportamental.

Buscar a aceitação torna-se uma atividade inerente à vontade humana a partir do momento em que a influência das mídias globais é extrema. Tentar desvincular-se dessa modelagem de gostos e vontades é entregar-se a olhares tortos da cúpula capitalista industrial e de seus consumidores alienados. Se voltarmos a Platão, que apregoava ser a beleza a única ideia que transcendia do plano metafísico, o real valor do belo vai muito além do que pode ser oferecido por espartilhos e bisturis, é uma conotação de bem estar espiritual consigo mesmo.