domingo, 30 de setembro de 2012

13:39

Entre gueixas, ditaduras e espartilhos

Todos os dias, ao ligar a TV, passear pelas páginas da Internet, ou mesmo andando pelas ruas, o homem contemporâneo se depara com a ditadura de um novo padrão estético: o magro e bem definido. Eis que os humanos veem-se diante de uma luta na busca pela aceitação nos padrões de beleza midiáticos atuais. Contudo, a criação dessas normas estéticas não é uma realidade da sociedade ocidental contemporânea, tais normatizações são atemporais e universais, relacionando-se sempre aos interesses de uma elite e às necessidades dessa.

Entre as comunidades primitivas, a beleza feminina era associada à fertilidade reprodutiva, ou seja, seios e quadris fartos. Há menos de um século, a sociedade chinesa ainda se orgulhava de suas gueixas, as quais mais que belas concubinas, eram ícones de delicadeza e mártires na busca pela perfeição estética. Não diferentes, as europeias da Era Vitoriana se sujeitaram às atrozes deformações físicas proporcionadas pelos tão conhecidos espartilhos.

O século XXI, marcado pela formação de uma sociedade urgente, deu margem para o surgimento de um novo padrão estético que atendesse à agilidade industrial do sistema capitalista, trazendo de volta o ideal greco-romano de corpos magros e perfeitamente simétricos, substituindo a mágica tortura das cintas vitorianas pelos pesados e sofisticados mecanismos da academia. A indústria da moda, aliada à mídia, tolda as visões modernas de modo a influenciar gastos absurdamente altos com cirurgias plásticas, academias, maquiagens e vestuário, tendendo a sociedade para um padrão único físico e comportamental.

Buscar a aceitação torna-se uma atividade inerente à vontade humana a partir do momento em que a influência das mídias globais é extrema. Tentar desvincular-se dessa modelagem de gostos e vontades é entregar-se a olhares tortos da cúpula capitalista industrial e de seus consumidores alienados. Se voltarmos a Platão, que apregoava ser a beleza a única ideia que transcendia do plano metafísico, o real valor do belo vai muito além do que pode ser oferecido por espartilhos e bisturis, é uma conotação de bem estar espiritual consigo mesmo.    

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

22:48

De profanar amor...

Os momentos que não são meus, as brincadeiras que não são feitas comigo, as intimidades de criança, das palavras inocentes dedilhadas com amor nas notas da voz, mas que nunca foram feitas para os meus ouvidos.

As canções que embalam as noites de amor no prazer que a lua faz cair de brilho prata sobre os corpos que amam, abraçados sobre a cama, ainda cansados, porém completos da paixão que compartilharam por quantas vezes desejaram.

O amor que eu não ouso tocar ou perturbar, é puro demais para que essas mãos frias e sem calor de sentimento possam tocar. Mãos impuras, mãos que não sentem, de dedos que não dedilham notas de amor, mas palavras rudes de agradecimento ou revolta sobre aqueles que sequer tem culpa da mente amargurada que toma meu espírito.

Os pensamentos da noite, da tarde e de manhã, se confundem, enquanto os profanos pensamentos meus tentam se afastar do prazer que compartilham, as lágrimas correm como rios pela pele... Ora descem retas e se afogam, salgadas, na frieza de lábios que não tocam os beijos de amor, às vezes, correm deitadas e acabam chegando aos ouvidos, não acostumados a qualquer palavra de carinho íntimo que amantes possam trocar...

Obrigado, ferido a dizer que tudo está bem. Palavras mentirosas e verdadeiras muitas vezes se distorcem e mesmo eu não consigo saber quais delas são verdadeiras ou não. Até onde vão as mentiras e as verdades que o coração obriga a contar para manter a paz da mente, do espírito e a harmonia entre todos os povos que a força do sentimento poderia interferir.

Presente, confusões, ciúmes, saudades, memórias, bebidas, álcool, descasos, música, passado, sentimentos, lábios, palavras, mentiras, amigos, vitórias... Não existe qualquer razão na insanidade de não se conseguir ter paz de espírito ou mesmo distinguir de onde brotam lágrimas espontâneas, que forçam o rosto a queimar em vermelho, apenas sabem que correm. E correm em silêncio, enquanto os outros dormem, enquanto a solidão é presente, enquanto se vê uma fotografia, em diferentes instantes do dia...

São complicadas emoções para uma mente jovem demais para tamanha complexidade e instabilidade emocional, mas que tenta abandonar as próprias esperanças de conseguir algo para si, sentindo-se invadido pelo estranho desejo de sempre ir além do que as palavras e o ego podem permitir.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

04:36

Dança da noite no frio da madrugada...

Os lábios dançavam em sincronia no quarto quase que totalmente escuro, as quatro mãos percorriam seus corpos com a velocidade com que o prazer e a excitação lhe tomavam a mente.

Os botões das camisas começaram a ser abertos, as mãos lentamente percorriam o tecido, enquanto os beijos eram trocados, entre gemidos e sussurros de um prazer silencioso, aos poucos ambos estavam despidos já de uma peça de roupa e a nudez de suas peles se tocavam, intensificando as marcas das unhas que arranhavam a pele um do outro e deixavam o branco de epiderme com caminhos vermelhos, como memórias de prazer, e era tudo tão natural enquanto ficavam nus e navegavam um pelo corpo do outro, tentando descobrir os pontos fracos do prazer alheio, que parecia não haver tempo em que pudessem ser contidos os prazeres daquela noite...

As mãos bobas invadiram as calças e permitiam-se descobrir as primeiras surpresas da noite, ambos prontos para viverem de seus próprios prazeres... Era a primeira vez em que possuíam um contato tão íntimo e sem restrições, e o calor dos corpos faziam com que não tivessem qualquer vontade de sentir frio novamente. O aroma do prazer que pairava sobre o quarto dançava junto com a música que tocava, silenciando os gemidos e expressões de prazer que a cena tornava inevitáveis...

As respirações ofegantes nos ouvidos, a determinação das mordidas, a força com que unha e carne se uniam para rasgar um ao outro e não haver qualquer dor, se não aquela que viesse acompanhada de um prazer que lhe fosse superior... Tudo dançava em sincronia com a adrenalina que fazia seus corpos tocarem os limites do prazer e elevá-los à excitação máxima que humanidade poderia atingir na mistura fina de prazer, amor, dor e luxúria...

O calor se desfez e um vento frio tocou seu corpo... Enquanto puxava o cobertor para poder se proteger do frio que a manhã trazia, uma lágrima brotou de seus olhos escuros ao ver que estava mais uma vez, como todas as outras, curtindo a solidão fria de sua cama de solteiro, no mesmo quarto escuro e sem qualquer companhia para oferecer-lhe calor. O sonho havia se desfeito rapidamente, então, voltou a dormir, o relógio ainda marcava 4h: 36min, e em pouco tempo seria hora de levantar para mais um de seus dias de trabalho...

11:45

Bound To You ♪

Então, acho que finalmente encontrei mesmo o meu caminho, alguém em que posso confiar.

Alguém cujos olhos podem me fazer parar, cujo sorriso parece querer dizer algo que as palavras podem ser pequenas para dizer... Um sorriso de gargalhada rouca e cortada, do jeito mais lindo que eu poderia ter encontrado.

Vejo verdade em cada palavra, gesto, toque, olhar... Uma verdade que não existe, mas meus olhos recusam-se a acreditar que está morta.

Encontrei meu caminho e poderia ter a certeza de que ele estava ligado a você, mas acredito que nem sempre podemos seguir o nosso caminho, e precisamos pegar um atalho... Mas, nem sempre os atalhos que pensamos encontrar nos levam ao destino certo, e eu tenho já certeza de que, qualquer que seja o meu atalho, você não estará no fim dele me esperando...

Confiar em você, desacreditando de nós. É tão difícil distinguir onde termina o “nós” e começa o “você” e “eu”, separados um do outro pelo próprio tempo. Tem vezes que paro, e imagino como seria se pudesse ser real, e te vejo conhecendo o pior de mim, e então vejo você partindo, e tudo isso deixa minha mente apavorada, por apesar de tudo, estar amando de verdade pela primeira vez...

Mas, como posso saber que estou amando se não sei do teu amor? Se não sinto seu toque mais apaixonado, nem posso ter todo o teu carinho? Não sei, apenas acredito na verdade de meus olhos, que só choram por você...

E tenho medo que você me conheça, que saiba dos meus desejos, que saiba que me tem fácil demais nos teus braços e queira pegar meu sorriso somente para poder jogá-lo fora depois, como tantas vezes já fizeram. Quando me quebrar será somente mais um, então, não o seja. Não queira ver o meu fim, porque já estou próximo demais dele para que precise de mais um empurrão...  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

17:49

Te jogar no vento...

Se eu te jogasse para cima, você partiria com o vento? Migraria com os pássaros para não mais voltar? Ou diria que o vento não te faz também? Que os pássaros são simples demais para esse teu sorriso avoado e rouco?

Se te jogasse no mar, você nadaria para longe da costa? Mergulharia para sempre com os cardumes? Ou voltaria dizendo que te enxugasse, para não ficar resfriado? Diria que mesmo os peixes não sabem nadar com a força com que teus olhos prendem?

Mas, como posso cobrar tanto de você?

Não há como cobrar a volta de quem nunca sequer veio? Que direitos tenho eu sobre você que nunca me pertenceu? Como poderia pedir para que se importasse com minhas lágrimas, quando nem ao menos tive a chance de te dar sorrisos carinhos quando estava deitado em meu colo?

Como lidar com essa vontade insana de chamar de “meu” tudo aquilo que não posso ter?

Mas, tenho ciúmes do passado que faz parte da tua memória, do presente que te toca, do futuro em que te vejo ainda mais distante de tornar-se meu...

Queria te encontrar voando, perdido no ar de novo. Poder capturar teu riso nos meus lábios, teus dedos na minha pele e guardar tua gargalhada mais feliz para mim. Manter teus olhos fechados, para que percebesse além dos que os sentidos pudesse te dar o desejo que parte de mim para teu coração.

Saudades de quando me pegava pela mão e olhava nos meus olhos e eu conseguia ver que o mundo não tinha mais sentido sem a sua presença. Saudades da tua mão escorregando por meu corpo, sem qualquer receio da luz que viesse a invadir o quarto. Saudades de quando eu te acordava sorrindo e tua cara bêbada de sono me pedia para fechar as cortinas porque a luz incomodava...

Saudades de um desejo que jamais será concreto, de um tempo que o futuro não trará. Mas, dizem que o tempo tudo sara, e se tenho saudades dos desejos que tenho com você, ainda hão de ser todos esses desejos também saudosos, hei então de poder sorrir e ver tua felicidade sem incomodá-la, afinal, faço questão do teu corpo, da tua presença, dos teus beijos,  mas faço muito mais questão ainda do teu sorriso infindável, seja lá onde quer que você o encontre...

01:33

Então, sofra sua dor em silêncio...

E tudo aquilo que não pode partir sozinho, pode ser arrancado. Então, enfia a mão quente em teu coração e arranca do peito, a sangue frio, o sentimento que tinge como tatuagem a beleza rubra de teu órgão pulsante. Se as cores não se vão por liberdade, que saíam à força, arrancadas pelo poder te teus punhos. 

Arranca do mesmo modo como se arranca um inseto parasita que consome tua essência e não deixa tua mente trabalhar, deixando a ébria de sono e desejo. Se os dedos não tiverem força suficiente parar tirar a mancha negra de teu órgão, então o arranque com a própria adaga, crave na carne vermelha a lâmina fria e deixe o sangue escorrer pela branca e lavar as vontades de qualquer desejo. Revire a faca, gire-a, enfinque-a com força dentro de teu próprio corpo e gire-a sem receios, remexa para todos os lados. Que a ferida doa, que seja teu sofrimento quase tangível na tua alma, mas arranca de ti toda a mancha...

Deixe que a ferida profunda seja feita sem anestesias, deixe a dor tomar conta de tua alma e sofra sem gritar uma única vez teu pranto. Deixe-a cicatrizar sem sal e pimenta, deixe-a exposta a qualquer dor mínima e menor, deixe que a toquem, que a façam sangrar e aprenda a agüentar toda o sofrimento sem reclamar com uma lágrima sequer.

Não há a necessidade de curativos e enfermeiros, tu, sozinho, sem ajuda, ainda és capaz de cuidar da tua dor, exposta na carne podre de teus órgãos. Teu coração pode muito bem ficar exposto e ferido, de modo que qualquer um pode fazê-lo parar de bater com o único toque, um toque mínimo de mãos dadas.

Confia nos teus deuses, nos teus mestres, confia no teu único aliado de sempre, o Tempo. Talvez, ele seja lento e complexo em seu processo de cura, e pode ser que a cicatrização doa ainda mais dentro de teu peito que a própria ferida, mas Ele há de te fazer novamente sorrir sem deixar derramar uma gota de sangue silencioso...

domingo, 23 de setembro de 2012

00:07

Tudo que quero, me promete...

Quero que partas, que vá para onde meus olhos não alcancem teu sorriso, nem teu jeito moleque de sorrir torto. Quero te envolver em meus braços, e sentir teu cheiro, e ouvir tua respiração ofegante junto de meu ouvido.

Quero que me deixes, que não voltes nunca mais, que abandone para sempre qualquer lembrança de mim. Quero que deite comigo, que me veja sonhar, que te veja ao abrir os olhos e possa ouvir teu “bom dia” acompanhado da tua cara mais bêbada de sono.

Quero que me apagues da tua memória, que deixe o vento levar o tempo que já estivemos perto um do outro, próximos ou não. Quero que tiremos fotografias e as espalhemos pela casa, que as colecionemos para além das redes sociais, e que um dia folheemos nossos álbuns nostálgicos de nossa juventude apaixonada.

Quero que suma da minha presença e afaste-se de tudo que pode ter relação comigo. Quero que fique comigo quando eu estiver sozinho, quero que me dê colo quando eu precisar chorar e quero que seja o sorriso ao meu lado quando alcançar as maiores vitórias.

Faz-me bem quanto te tenho por perto, sinto saudades desesperados quando te deixo por pouco mais que quinze segundos. Tenho saudades da tua presença, do teu cheiro, do teu jeito, daquela tua risada mais rouca e boba, de quando fala coisas sobre “o planalto central, também magia e meditação”, e eu me sinto ainda no esquema de “escola, cinema e televisão”.

E quando te toco, quando sinto cada pedaço de sua pele sob meus dedos, ou o cheiro de teu ombro, misturados aos sussurros de teu prazer reprimido.. Não sei pelo que fecho olhos, se é pelo meu próprio prazer ou se pelo fato de sentir que também teu corpo se contenta comigo, talvez pela mistura dos dois, a mistura estranha de eu e você, abraçados sob o selo da lua que sorri como um gato na noite.

Quero, e posso dizer que tenho muito além do permitido, e muito aquém do necessário para mim, contudo ainda sim fico feliz por ter te tão somente para mim, mesmo não tendo qualquer direito sobre tuas vontades ou dias. Mas sei que tenho algo, algo que é somente meu, e por mais que te tenham, tenho uma parte que é somente minha e jamais me será tomada por qualquer que seja, uma parte que deixastes para sempre comigo e não serás capaz de arrancar jamais... 

Ainda assim, embora minhas vontades dúbias de você sejam por vezes complicadas demais de se entender, antes de tudo, sobre tudo, quero que cumpras a promessa de não deixar jamais, mesmo que eu implore e esperneie, jamais atenda a meu pedido louco de querer que partas para longe de mim. Cumpra teu juramento e você já estará fazendo qualquer lágrima que caía do meu olho encontre um sorriso no canto de meus lábios. 

sábado, 22 de setembro de 2012

20:02

Permita-se sentir...

Pressiona teu corpo contra meu, puxa-me pelo cós da calça e tira meus pés do chão. Morde minha pele e deixa-me sentir o cheiro de teu corpo invadir e fundir-se ao meu. Permita-me olhar nos teus olhos e ver a sombra que a lua deixou cair e os tornou negros.

Deixa-me invadir a tua intimidade e acariciar teu corpo, sem medos, sem pudores, sem timidez alguma. 

Deixa que eu empurre teu corpo contra o muro e arranhe a tua pele com minhas unhas, marca meus ombros com tuas mordidas e abre minha camisa com tuas mãos firmes e intensas...

Deixa-me ser todo teu, sem receios de quando o sol chegar...

Puxe minha roupa, pegue meus cabelos, arranque meus sorrisos bobos, deixa-me te chamar para sempre daquilo que me pertence, dedica-me palavras carinhosas e me acorde com seus beijos, ou deixa-me dormir no teu abraço caloroso.

Permita-me sonhar com teu toque e acordar sem saber se foi sonho ou realidade, me abrace enquanto eu durmo, me beije quando eu fechar os olhos... Sinta meus lábios quando o vento tocar sua pele, imagine-me e torne-me real no teus dia...

Deixa que eu te guio quando estiver só, deixa que eu seco tua lágrima, deixa que eu te dou teto quando estiver sem casa, deixa que eu te abraço no seu frio e te ofereço o melhor de mim...

Deixe meu futuro fazer companhia ao teu e vamos juntos trilhar o caminho que escolhermos. Diga-me que estará comigo e eu vou de olhos fechados, porque confio no teu olhar real...

18:09

Sobre um Escorpião que amava centauros... 

Era a primeira vez que o Centauro corria por aquelas planícies e, mesmo assim, parecia conhecer o lugar certo por onde deveria passar, suas patas de equino sabiam exatamente onde tocar para não ferir os pequenos animais que se deslocavam pela grama. Seu passo firme e galope certo e preciso, embora ágeis e rústicos, conseguiam, simultaneamente, serem delicados e elegantes ao amassar a fina relva verde do chão, ainda regada do orvalho da noite.

Às costas, repousado sobre a aljava de flechas, estava o Escorpião. O homem-cavalo o havia, por algum motivo, colocado ali, talvez por achá-lo simpático ou agradável a companhia. O aracnídeo acabara fascinado pelos encantos de sua nobre carona, talvez não pelo  porte físico tão belo e altivo, intrínseco à raça dos centauros, o que mais o havia seduzido na parte humana do arqueiro tinha sido aquele sorriso tão espaçoso, simpático e aconchegante que os traços de sua boca formavam, sintonizados com sua respiração excitantemente ofegante.

O Escorpião sabia que aquilo que o Centauro havia despertado nele não lhe era estranho, mas era curiosamente peculiar, uma vez que, embora já tivesse visto aquele mesmo homem-animal, nunca havia olhado para ele com qualquer interesse, apenas o achava belo e nada além disso. Contudo, depois da proximidade, parecia impossível ter vontade de partir para qualquer outro lugar que não fosse com ele.

Talvez, o que mais estranhava ao Escorpião naquele estranho processo de fascinação era o fato de se tratar de um centauro. O pequeno animal tinha plena consciência de que sua espécie e a raça da fascinante criatura nasceram para se opôr tão vorazmente um ao outro, que a simples divisão do mesmo espaço seria suficiente para fazer quebrarem  pedaços de si mesmo. Mas, o nosso Escorpião jamais entendera o porquê de sempre se deixar levar pelos centauros, e aquele não era o primeiro de sua história.

Embora soubesse que entre os touros encontraria seu mais perfeito local de repouso, que entre os loucos carneiros conseguiria saciar seus desejos mais íntimos, entre os peixes poderia alcançar o paraíso e mesmo com os caranguejos talvez atingisse tudo o que estivesse em busca. Era entre as mais antagônicas criaturas a ele que se sentia absoluto e pleno.

Jamais pôde repetir junto àquele centauro a experiência do galope perfeito, contudo mesmo as lembranças de cada vale que cruzara já lhe saciavam os mais âmagos desejos de sua alma.

“Centauros são livres demais para essa vida, e talvez não sejam o que você precisa, Escorpião”, lhe disse uma vez uma criatura especial que morava num aquário. Contudo, que podia o pequeno animal fazer a respeito? Se nada parecia lhe completar tão bem quanto o maior de seus inimigos? Seria inevitável a atração fatal e o doce perigo que estreitava a união de duas peças tão profundamente antagônicos, tais perigos e mistérios, que aos outros podem soar.  Nosso minúsculo protagonista sabia que a liberdade que os homens-cavalos tinha jamais se sujeitaria ao doce veneno compulsivo, ciumento e íntimo natural dos escorpiões.

Mas, tais lances de amores e atrações tão estranhas apenas resumem pequenas partes da vida humana, afinal, não só na estória, mas também na história, não se encontram sós nossos protagonistas. Também aqui, entre nós, podemos saber de tão estranhas combinações afetivas quanto a singela ironia de um escorpião que amava centauros...

Tempos depois, o Escorpião ousou nadar, num mergulho insano desejou afogar-se no prazer que seu elemento, a água, lhe trazia, quis se perder na infinidade do mar, sem se preocupar com a leveza ou violência com que a correnteza o levava para longe de sua terra natal, para longe até mesmo dos centauros. Mas, na mente fria do aracnídeo, que agora deixava-se embalar pelas águas dos oceanos, os centauros faziam parte de uma lembrança antiga, um desejo velho e meio louco, agora, o pequeno inseto procurava acalento no que o horizonte podia lhe dar...

19:16

Sobre homens e crianças egoístas... 

Os homens nascem egoístas é a sociedade que o atribui valores. Talvez seja uma audácia desafiar Rousseau e dizer que a célebre frase que apregoava, “o homem é bom, a sociedade é que o corrompe”, não é tão assertiva assim.

Mas, como negar o que podemos observar constantemente nas mais singelas criaturas de nossa raça humana? Pensem em como as crianças são: egoístas, ao ponto de jamais querem dividir os próprios brinquedos. Pensem em como nenhuma delas gosta de se sentir ofuscada pelo brilho de uma nova alma infantil no mesmo espaço. Repare o quanto elas fazem birra ou tentam chamar a atenção com seus choros, gritos. Uma busca desesperada pela atenção adulta. 

E mesmo assim, como não amá-las? Como não amar aqueles sorrisos tão inocentes e simples. Como não amar aqueles rostos tão delicados? E como não encher-se de risos como aqueles gargalhadas tão felizes, desprovidos de dentes?

Mas, obviamente, são os homens quem dão molde à sua sociedade. São os humanos quem toldam os valores de honestidade, caridade e humildade. Embora, ainda hoje muitos prefiram seguir seus sentimentos egoístas e infantis, não se pode culpar uma sociedade que define valores éticos de respeito a seus integrantes como culpada pela existência prolongada de homens-criança que ferem esses valores.

Vale ressaltar, essa mesma sociedade ocidental que dignifica a glória do homem, que determina seus valores de honestidade e respeito ao próximo, é a mesma que condena as diferenças e estimula a criação de um tipo único de pessoa, cuja real identidade tende a ser omitida para dar lugar a uma face estereotipada de terrestre.

Mas, essa face, por assim dizer “anômala” da sociedade original, cabe aos que mantém os egoísmos de criança ainda vivos em sua alma já dita tão madura. Mesmo aqueles que tanto têm de adultos e maduros, nos conformes do que essa sociedade prega como valores morais certos, mesmo esses ainda carregam em si a herança de sua infância comodista, porque nós, humanos e falhos, não nascemos para a solidariedade. E a nós somente interessa usufruir de nossa própria felicidade, mesmo que para isso ocorra o holocausto da alegria de outrem.

Os homens sentem-se felizes quando são desejados, pois saber que alguém o deseja o faz sentir poderoso, e é nisso que os humanos se perdem na volta às raízes individualistas de sua alma. Quando alguém os deseja, então sua alegria é realmente plena, porque, às vezes, me parece que nada reconforta mais uma alma que saber que há outra sofrendo mais que ela…

Não fosse por isso, por que tantos comemoraram enquanto Hiroshima queimava nas chamas de uma bomba atômica? Ou tantos riam enquanto degolavam cabeças humanas nos fios de espadas de aço ou prata? Ou mesmo quando o fio da guilhotina degolava reis e rainhas de outrora?

E quando uma pessoa se entristece pela tristeza de outra? Nada mais egoísta que querer ajudar o próximo quando este está em fase de tristeza, pois NÓS, egoístas que somos, temos de tentar garantir o consolo na próxima vez que estivermos em tristeza, NÓS teremos alguém para nos consolar também. Se sofremos pela tristeza de alguém é porque sofremos pelo que nos aconteceu, pelo que nos ocorre, ou pelo que ainda há de vir…

São todos vítimas-algozes. Que a cada momento trocam suas posições em cada relação que mantêm... Ora podem ser vítimas de alguém que sabendo de seus sentimentos lhe faz sofrer... Ora, contudo, pode ser também algoz, ao se ver na posição de amado por outro... 

Mas essa é a Roda do Mundo, a Fortuna que derrama sobre a vida seus dissabores e amores. Mas, o importante é que seja vivo… que tenha fé… que aproveite a hora de vítima pra se fazer mais forte, mas não como no intuito de tornar-se algoz. E sim como alguém que, diferentemente dessas vítimas-algozes, mantém sim seus sentimentos egoístas e próprios dos humanos, mas que acumula suas dores na tentativa de não fazer que o próximo seja paciente dos mesmos males que outrora sofrera…

16:34

Sobre relógios e o tempo...

Sorrisos que duram segundos...

Beijos que se estendem por longos e prazerosos minutos...

Paixão que, entre suor e gemidos de prazer, estendem-se por horas...

Atração e excitação que prolongam-se por dias a fio, vivos na memória...

Namoros que duram mais que meses de carinhos mútuos...

Amor que se estende por anos, transpassam décadas e atravessam o próprio limite da vida...

Há tanto tempo, e há tanto para ser vivido. Tantas sensações que os ponteiros do relógio não podem marcar, mas são obrigados a fazê-los...

Tantas vezes que horas transformam-se em segundos de prazer, e segundos de saudade já parecem durar a anos de solidão.

O tempo é tão breve para tanto que há preciso ser sentido, e tão longo quando se há tão pouco para ser sofrido.

Enquanto escrevo, as horas passam devagar e sinto saudades, ciúmes, amor e vontade, tristeza, dor, carinho e calor, todas as sensações contidas num pequeno e breve espaço de tempo, talvez menos que milésimos de um só segundo...

Ainda acho que confuso é o tempo que me dão para falar, e que muitas vezes as palavras saem sem sentido, e mesmo essas me são estranhamente incompreensíveis. Mas, se escrevo, é pelo prazer de dizer sem preocupações as emoções que as horas me trazem...

Leiam, gastem as horas ou os minutos que quiserem...

Descubram o que os segundos do MEU RELÓGIO DE BOLSO insistem em contar sem pudores...