sábado, 22 de setembro de 2012

18:09

Sobre um Escorpião que amava centauros... 

Era a primeira vez que o Centauro corria por aquelas planícies e, mesmo assim, parecia conhecer o lugar certo por onde deveria passar, suas patas de equino sabiam exatamente onde tocar para não ferir os pequenos animais que se deslocavam pela grama. Seu passo firme e galope certo e preciso, embora ágeis e rústicos, conseguiam, simultaneamente, serem delicados e elegantes ao amassar a fina relva verde do chão, ainda regada do orvalho da noite.

Às costas, repousado sobre a aljava de flechas, estava o Escorpião. O homem-cavalo o havia, por algum motivo, colocado ali, talvez por achá-lo simpático ou agradável a companhia. O aracnídeo acabara fascinado pelos encantos de sua nobre carona, talvez não pelo  porte físico tão belo e altivo, intrínseco à raça dos centauros, o que mais o havia seduzido na parte humana do arqueiro tinha sido aquele sorriso tão espaçoso, simpático e aconchegante que os traços de sua boca formavam, sintonizados com sua respiração excitantemente ofegante.

O Escorpião sabia que aquilo que o Centauro havia despertado nele não lhe era estranho, mas era curiosamente peculiar, uma vez que, embora já tivesse visto aquele mesmo homem-animal, nunca havia olhado para ele com qualquer interesse, apenas o achava belo e nada além disso. Contudo, depois da proximidade, parecia impossível ter vontade de partir para qualquer outro lugar que não fosse com ele.

Talvez, o que mais estranhava ao Escorpião naquele estranho processo de fascinação era o fato de se tratar de um centauro. O pequeno animal tinha plena consciência de que sua espécie e a raça da fascinante criatura nasceram para se opôr tão vorazmente um ao outro, que a simples divisão do mesmo espaço seria suficiente para fazer quebrarem  pedaços de si mesmo. Mas, o nosso Escorpião jamais entendera o porquê de sempre se deixar levar pelos centauros, e aquele não era o primeiro de sua história.

Embora soubesse que entre os touros encontraria seu mais perfeito local de repouso, que entre os loucos carneiros conseguiria saciar seus desejos mais íntimos, entre os peixes poderia alcançar o paraíso e mesmo com os caranguejos talvez atingisse tudo o que estivesse em busca. Era entre as mais antagônicas criaturas a ele que se sentia absoluto e pleno.

Jamais pôde repetir junto àquele centauro a experiência do galope perfeito, contudo mesmo as lembranças de cada vale que cruzara já lhe saciavam os mais âmagos desejos de sua alma.

“Centauros são livres demais para essa vida, e talvez não sejam o que você precisa, Escorpião”, lhe disse uma vez uma criatura especial que morava num aquário. Contudo, que podia o pequeno animal fazer a respeito? Se nada parecia lhe completar tão bem quanto o maior de seus inimigos? Seria inevitável a atração fatal e o doce perigo que estreitava a união de duas peças tão profundamente antagônicos, tais perigos e mistérios, que aos outros podem soar.  Nosso minúsculo protagonista sabia que a liberdade que os homens-cavalos tinha jamais se sujeitaria ao doce veneno compulsivo, ciumento e íntimo natural dos escorpiões.

Mas, tais lances de amores e atrações tão estranhas apenas resumem pequenas partes da vida humana, afinal, não só na estória, mas também na história, não se encontram sós nossos protagonistas. Também aqui, entre nós, podemos saber de tão estranhas combinações afetivas quanto a singela ironia de um escorpião que amava centauros...

Tempos depois, o Escorpião ousou nadar, num mergulho insano desejou afogar-se no prazer que seu elemento, a água, lhe trazia, quis se perder na infinidade do mar, sem se preocupar com a leveza ou violência com que a correnteza o levava para longe de sua terra natal, para longe até mesmo dos centauros. Mas, na mente fria do aracnídeo, que agora deixava-se embalar pelas águas dos oceanos, os centauros faziam parte de uma lembrança antiga, um desejo velho e meio louco, agora, o pequeno inseto procurava acalento no que o horizonte podia lhe dar...

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