quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

11:21

Da folha incinerada...

O vento lhe sussurrava palavras tão bonitas e lhe tocava com o sopro gelado vindo do norte, aquecendo-a em seguida com o hálito quente que o álcool fazia surgir... Quando das rajadas mais fortes, ela permanecia firme, agarrada à árvore que lhe fizera viva. Mas, ainda sim, era apenas folha e se deixou levar pelo sopro do vento...

Então, voou... Entregou-se de tal modo ao deslizar do vento que se permitiu levar por toda a parte... Passou por rios, deixou a noite banhar de sereno o corpo verde, passou pelas matas e pelos campos, encantado com o toque suave que o ar lhe dava. Era incrível como era tudo mágico, o vento a sabia fazer  girar, rodar, vibrar... O vento fez a folha sentir-se livre, presa, completa, parte do todo, pela primeira vez na sua curta vida...

Então, o chão lhe pegou... O vento parou de soprar para ela, havia mais árvores esperando para serem desfolhadas por ele. O solo a colheu e lhe deu conforto, carinho e a atenção que a pobre folha só esperava do vento que a tornara folha viajante. Mas, mesmo todo o carinho do chão era desconfortável e a própria folha rolou sozinha pelo chão e subiu na pedra, de pontas afiadas, que a cortaram e feriam, mas ainda lhe faziam mais bem que o carinho vindo da terra...  

Então, de cima da pedra, o vento a tomou novamente para dançar... E ela foi, jogou-se no vento mais uma vez, tentando acreditar que dessa vez seria diferente, mas os voos dessa vez foram maiores e mais altos, ele a fez tocar as nuvens e mais uma vez a pequena folha pode sentir o carinho do vento no seu corpo, apenas mais uma vez...

Então, ela caiu mais uma vez. Mais uma vez desceu ao solo, dessa vez caiu no asfalto e decidiu por si só e aquela seria a última vez... Nas bordas do asfalto, nos cantos da estrada, viu o chão querendo acolhê-la de volta, viu novas flores querendo perfumá-la e ainda algumas árvores querendo abrigá-la nas sombras de suas copas...

Mas todo o aconchego do mundo era inútil longe do vento frio e do sopro quente... Agora a folha verde já era seca. Seca demais para que o vento se importasse com ela mais alguma vez, mas caso se importasse, seria tarde demais...

Girou pelo asfalto quente, procurou o sol entre os astros celestes, implorou ao Astro-Rei o máximo de seu calor. Sentiu então o corpo ficar cada vez mais quente e, finalmente, a folha se incinerou... Entre as chamas pequenas e rápidas, tornou-se cinzas...

Ninguém soube por que a folha se foi, ninguém nunca entendeu suas últimas escolhas e, a menos que o próprio vento sussurre entre os trigos, talvez o segredo tenha partido mesmo com ela e virado cinzas...

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