segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

23:58

E eu era ruim de matemática
  
Entre uma e outra faixa do MP4 que eu toco por aí, Vanessa da Mata já havia me dito que todo mundo quer um alguém para amar. Mas, “alguém” é uma palavra abstrata e estranhamente vazia, então, resolvi acreditar que eu queria um amor maior, um amor até mesmo maior que eu. Mas, as certezas que eu tinha do que era esse “maior” estavam ainda tão confusas que, na precipitação adolescente que ainda mantenho nos meus quase 20 anos, acreditei que era fundamental a sintonia das afinidades.

Para ser sincero, nunca acreditei muito nessa tal lei da Física que diz que “os opostos se atraem”. Por alguma razão, não me parecia nem próxima da realidade a ideia de que as diferenças e distinções pudessem ser ingredientes tão essenciais para criar essa poção a que chamamos de paixão, talvez, amor. E ignorar os princípios dessa lei foi o que me fez acreditar na ilusão de que “maior” era “igual”. Nunca fui lá muito bom em matemática.

Então, apareceu você. Não nas aulas de matemática, mas no intervalo entre a aula de Poções e a de Transfiguração. E foi incrível, se não estranho ou engraçado, ter encontrado alguém tão maior, tão igual a mim. Mas, como eu podia imaginar, a princípio, as possibilidades do corvo e da serpente? 

E, depois de tanto tempo sem sentir cheiro algum na Amortentia, eu senti cheiro de pasta de dente. Por mais clichê que isso possa parecer. Não era uma afinidade que se resumia aos gostos musicais, literários e artísticos. Mais que isso, éramos iguais em modos. O mesmo jeito tímido, sem jeito, desajustado, talvez, até mesmo o jeito desengonçado (embora eu reconheça que seja impossível igualar-se a mim no quesito destrambelhado). Mas, éramos assim. Iguais. Iguais demais para os filhos de Salazar e Rowena. E até mais do que eu conseguia enxergar.

E, se a química acontecia antes dos primeiros toques, o primeiro beijo consumou o encanto (seria essa a palavra certa?). A princípio, não foi a química do beijo perfeito que tira o fôlego, mas foi de tal modo fascinante que o momento se perdeu nas sensações. Mais uma vez eu conseguia sentir o nervosismo adolescente, o frio na barriga, as borboletas fazendo revoadas no estômago e toda emoção da surpresa se misturando com a sensação até mesmo infantil de sentir o mundo parar no momento do toque.

Mas éramos iguais demais. Como um corvo que rasteja e uma serpente que voa. As diferenças e as distinções das Casas ficavam em algum lugar sob as carteiras enquanto o caldeirão das minhas sensações borbulhava, mesmo diante do fogo baixo sobre o qual ele estava aquecendo. Isso não constava nos efeitos colaterais da Amortentia. Ou eu passei despercebido demais pela receita e não percebi que a poção podia borbulhar em fogo baixo?

Eu não consegui enxergar que nós não formávamos um casal. Era difícil entender que, ao tempo que eu observava sua respiração lenta enquanto dormia, você sonhava com as surpresas e as descobertas daquilo que é desconhecido e pouco previsível. O igual parecia tão maior. Tão o “alguém” que eu tinha ouvido na canção que eu me perdi de cegueira pelo momento. Mas, você entendia melhor de matemática que eu. E, se eu achava que maior era igual, você já sabia que igual é igual. E, pra você, das igualdades, amizade. 

Eu deveria ter escolhido frases melhores para mim. Pensado mais em “alguém que me transborde” e menos naquilo que dizia que “os opostos se distraem e os dispostos se atraem”. Deveria ter tentado não desafiar as leis da Física e passado menos tempo procurando a perfeição das semelhanças e dedicado mais horas a achar a graça e divertimento das diferenças. Menos tempo acreditando que reler livros acrescenta e mais tempo tentando ler outros. Não pensava (e talvez nem pense ainda) que um gênero diferente também pode fazer bem. Menos tempo escrevendo um epitáfio e mais me preocupando em rabiscar minha vida de algum jeito torto que foge à linha porque, sim, sou assim destrambelhado. Ou, talvez, eu só precisasse mesmo ter ido a menos aulas de Feitiços e um pouco mais às aulas de matemática.

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